Mostrando postagens com marcador Mãe Lilizinha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mãe Lilizinha. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Do lado de cá da vida

Mãe Lilizinha do Canto B, chamada por mim às pressas, não consegue contatar Patrick Swayze. Ela acredita que seu ghost tenha contrato de exclusividade com a vidente clarividente Oda Mae Brown, que anda desaparecida das telas, do Oscar e dos conventos. Era minha tentativa desesperada de conseguir, com a ajuda do além, a senha para alguma conta milionária, e assim largar tudo e finalmente viver a vida. Quem sabe, mesmo após quase vinte anos e tantos percalços na economia, ainda tenha algo pra raspar da conta de Rita Miller, que imaginei tratar-se de uma parente distante de Morgana Jones Bronson (quando solteira, Morgana Jones Müller – entretanto, os Miller são irlandeses e os Müller, germânicos, conforme explicação filológica inquestionável de seu incansável esposo, Bronson Jr., sempre em busca das verdades onomásticas).
Tão lembrado por outros filmes, Patrick é para mim o eterno surfista gente boa e chefe da quadrilha que assaltava bancos usando máscaras de presidentes dos Estados Unidos no clássico incontestável “Caçadores de emoções”. E é o médico que ajudou pessoas carentes na Índia favelada e não global de “Cidade da esperança” (Índia que me persegue até na música desatualizada de Gilberto Gil abaixo, introduzida na letra certamente com um profundo significado espiritual que em meu apego à matéria não consigo vislumbrar).
Enquanto isso, na misteriosa Santo Amaro da Purificação, dona Canô reitera seu compromisso com a imortalidade e completa hoje seus 102 anos, perfeitamente saudável, serena, incólume, irradiando jovialidade e praticando pilates (quiçá ensaiando passos de uma Purification Dancing), como sói acontecer aos seres eternos baianos. Viva Canô! Viva a Bahia!
.
Desde o tempo do carro de boi
Da época do trem motriz
Do auge dos canaviais
Tens vivido a semear a luz
A paz e o amor que tem raiz
Na Índia dos teus ancestrais
Vida cheia de momentos raros
Nesta cara Santo Amaro
Terra de doces paixões
Zeca e todas as meninas
E os meninos, quantos sinos
Quantos hinos, quantas orações
Hás de ouvir de nós
Sempre essa voz
Sempre essa voz
Sempre em tom de louvor
Nossa emoção, Canô
Nesta canção, Canô
Nossa emoção, nesta canção
Parabéns pra você, Canô
Cem anos com você, Canô
Parabéns pra você, Canô
Cem anos com você, Canô

I've had the time of my life

quarta-feira, 27 de maio de 2009

EXTRAviados - The making of

México. Uma ilha paradisíaca. Sol, chuva, vento, picadas de mosquito. Nada de javalis, mas muitas criações de porcos. E vários meios de transporte para reunir um elenco estelar no maior sucesso de público e crítica do ano. Cheire um pouco de pó de pirlimpimpim, surfe na Grande Onda, pegue um helicóptero numa tempestade, ou um cruzeiro turístico, enfim, dê o seu jeito e não chegue a seu destino, tornando-se mais um dos Extraviados.
A série do ano. Atualizada de acordo com a reforma ortográfica, mas convivendo com a ortografia antiga ainda em vigor, conforme se trate do presente ou de flashbacks, os roteiristas de Extraviados utilizaram múltiplas referências. Literatura universal e brasileira, adulta e infantil. A história da televisão e da propaganda brasileiras. Os grandes sucessos do cinema e da televisão norteamericanas. Fatos nunca revelados dos bastidores da sinistra política nacional. A religiosidade popular lagunense. Mistérios da meia-noite que voam longe... e que conquistaram uma legião da boa vontade de fãs na Terra de Santa Cruz e alhures, especialmente nos países de língua portuguesa e na Espanha.
"Foi maravilhoso participar desse projeto único", disse a atriz brasileiro-espanhola BOA, que fez uma participação especial nesta temporada, no papel dela mesma.
Uma das principais locações foi uma ilha intocada do México, onde a equipe passou o que nenhum ferro passou.
"Filmávamos muitas horas por dia, debaixo de um sol de rachar. Bah, aquele calor, como sua a...", gracejou o ator que interpreta Sandro Patrício.
Mas a equipe logo aprendeu com a população nativa e adotou os hábitos locais para melhor conviver naquele clima: passaram a tirar longas siestas após o almoço, até o meio da tarde, à sombra das árvores. Isso atrasou consideravelmente as gravações, especialmente por culpa dos roteiristas, que perdiam horas e horas dormindo e não escreviam os episódios em tempo. Muitos acharam que fosse uma nova greve dos roteiristas, agora sindicalizados no México, mas foi apenas preguiça e lomba mesmo. Por conta disso, Extraviados quase foi cancelada já no quarto episódio.
"A bem da verdade, passamos por muitos maus bocados durante toda a produção. Penso que só concluímos os trabalhos porque a equipe era muito dedicada e as ideias eram estimulantes", confessa o ator que interpreta Manuelito.
E esses meses não foram mesmo fáceis para o elenco e os produtores. Muitos tiveram problemas gastrointestinais com a comida apimentada e os feijões saltitantes. Alguns atores não apareciam pra gravar. Uma das atrizes veteranas ia dançar todas as noites e no dia seguinte mandava trazer um atestado médico, pra não gravar. Só não foi demitida porque seu personagem é muito importante para a mitologia da série. E dizem as boas línguas que alguns quase foram cortados da série porque apareciam pra gravar frequentemente de porre.
"Dizem que toda noite tinha festa regada a muita tequila. Mas eu nunca fui, só ouvi dizer. Também não sei quem foi, não gosto de fazer maledicência", desconversa a atriz que interpreta H. Brandão.
Houve o caso comovente do integrante que ficou afastado por problemas no pâncreas, mas que completou a temporada com muita garra.
Quando tudo parecia superado, metade da equipe foi acometida pela famigerada e temida gripe A. Para os íntimos, gripe suína. Foram momentos de intensa preocupação, o elenco passou por uma longa quarentena, recebendo alimentos e medicamentos por via aérea, lançados pelo exército mexicano. Nos estúdios da TVS, chegou-se a cogitar de abortar o projeto.
"Seria lamentável terminar a série de uma hora pra outra, com tantas pontas soltas. Nós não aceitaríamos isso", disse com misto de indignação e alívio ZB, brasileira fanática pela série.
Mas a genialidade da série e o esforço conjunto superaram todos os contratempos. Entre problemas com os correios, pandemias globais, ameaças nucleares de ditadores malucos parecidos com o Chico César e outras desventuras em série, Extraviados chegou ao seu season finale com recordes de audiência, sucesso de público e crítica. Inteligência, aventura, mistérios, reviravoltas surpreendentes e um refinado senso jurídico-crítico fazem dela a maior série da atualidade. Tudo pode acontecer nesta emocionante história de pessoas extraviadas numa ilha misteriosa.
A famosa médium Mãe Lilizinha do Canto B já foi chamada para abençoar o set de filmagens para a próxima temporada, pra esconjurar o mau olhado e evitar a repetição de tantos infortúnios. Mas a vidente já advertiu: "Sinto que outra grande tragédia se aproxima. E será em breve."
E agora, quem poderá nos ajudar?
.
Eeeeeu! Atchim!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A Grande (Vara da) Família

No “Dicionário dos Lugares Imaginários”, o escritor canadense-argentino Alberto Manguel descreve em forma de verbetes enorme gama de localidades produzidas pela inventividade humana em séculos de literatura, da Atlântida a Lilliput, da Terra do Nunca ao País de Oz, passando pela Terra Média, que fica no meio, pois se é média é a média entre uma coisa e outra, como faria questão de frisar o Papai Smurf, genitor da Pequenininha. A edição brasileira traz o Sítio do Pica-pau Amarelo e a Pasárgada, onde sou amigo do rei. A lista não é exaustiva, pois muitos lugares até recentemente não haviam constado em qualquer obra literária, como a Ilha das Maravilhas (não confundir com o país de mesmo nome), a República das Pessoas que Escrevem Assim e a lendária Vara da Família de São José.
O Padre Voador não teve oportunidade de conhecer este lugar e, na verdade, ainda que seja um homem de muita fé, provavelmente não acreditaria na sua existência, pois os personagens que ali vivem e os eventos que ali ocorrem vão além do surreal e não podem ser descritos com palavras conhecidas. Dariam um ótimo tema pra um filme do Buñuel, se ele já não tivesse se encontrado com o mal irremediável há décadas. Quem sabe eu não consiga contactá-lo e pedir algumas dicas, coisinhas?
Como Mãe Lilizinha do Canto B é muito ocupada e só atende com hora marcada, apelei pra Dra. Prazeres, a Batista. Seus poderes mediúnicos são vastos, pena que está um pouco caduca e às vezes confunde as coisas. E eu também não facilito, pedindo pra falar com um espírito espanhol sem a presença da Boa pra traduzir.
Chamou um espírito e veio outro, mais chegado. Isso é invocação.
- Olá, quem está aí?
- Bem, eu prefiro não me identificar, é que já faz muito tempo que eu estive na Terra.
- Mas o senhor não pode me dizer pelo menos a sua profissão, a sua inicial?
- Bom, eu era um advogado de descendência árabe...
- Ah, aquele advogado cujo nome começava com Z? Como vai, Doutor Z?
- Bem, Louro, sabe, eu tenho acompanhado de perto a vida da Vara da Família de São José e sei porque eles têm passado por tudo que passam...
- Então conte, Doutor Z, tudo o que o Fórum de São José precisa é de uma boa fofoca.
E ele falou da transmigração da alma, da lei do carma e de porque todas aquelas pessoas foram reunidas pela mão do destino na Vara da Família: para expiar terríveis faltas cometidas em tempos imemoriais.
Em eras remotas, a humanidade resolveu construir uma torre tão alta que alcançasse os céus. Para tal empreitada, contrataram o melhor arquiteto da época, um jovem chamado Oscar Niemeyer, que projetou um estrutura incomparável utilizando a sua recém-inventada técnica das curvas – diferente das formas triangulares tradicionais que ele aplicara em seu complexo arquitetônico do Egito. A obra empregou um número incalculável de trabalhadores de várias procedências, alguns não muito zelosos de seu serviço. Uma mulher de vez em quando saía pra passear e avisava pra não esperarem sua volta. Uma família se desdobrava, trabalhando dia e noite pra alimentar toda aquela gente, com saborosas iguarias. Nessa família, havia uma menina de olhos verdes – mas ela preferia que fossem azuis, pois achava que olho verde é de balaio, todo mundo tem -, que adorava puxar papo com os trabalhadores. Travessa, um dia apertou todos os botões do elevador da torre, só pra sacanear os coitados, que levariam semanas pra subir e descer. A obra parou. Começou um furdunço e ninguém se entendeu mais. E a menina sapeca teve seu castigo séculos depois, indo trabalhar na Vara da Família sob a alcunha de Zóio de Balaio, doravante ZB.
Na época de Abraão, um jovem de aparência nórdica vivia na cosmopolita Gomorra, cidade cheia de gente pecadora, onde rolava muita putaria. Anunciava no jornal local seus serviços de massagem, atendendo hebréias, pagãs e casais, com local no centro. Passava os finais de semana na vizinha Sodoma, com muitas opções de lazer, inclusive bailões freqüentados por pessoas de todas as idades. Eram cidades muito violentas e ele tinha um sem-número de desafetos. Num dia de tempo fechado, percebeu que a primeira gota que caiu não era de água, e sim de fogo. Como pessoa boa que era, tomou uma atitude. Passou um trote para o corpo de bombeiros de Sodoma, o único da região, falando de uma criança que ia ser sacrificada pelo pai na distante Canaã. O velho tinha desistido mas esquecera o menino amarrado em cima de uma pedra e não havia ninguém pra socorrê-lo. Na ausência dos bombeiros, a chuva de fogo e enxofre logo arrasou as duas cidades, e fez-se o caos. Prevenido, o louro pegou suas coisas e se mandou a tempo. Apenas um casal com suas duas filhas foram mais rápidos do que ele, e picaram a mula – ou melhor, a jumenta de Balaão -, avisados pelo Senhor, pois eram os únicos justos entre toda aquela gente.
Em meio à confusão, o louro esbarrou com uma jovem virgem – a única de Sodoma e Gomorra, mas ainda assim pecadora -, que gritava só de sacanagem o nome dos seus vizinhos, por não a terem levado junto. Assim, ele ficou sabendo que o homem se chamava Ló, o qual fazia um saboroso pão, que na verdade era um bolo, o pão-de-ló. A virgem se esgoelava tanto que a mulher de Ló acabou virando-se para trás, contrariando a ordem do Senhor, e transformou-se numa estátua de sal. Sentindo-se vingados, estes dois personagens fizeram um pacto, tornando-se a partir daquele dia sócios em suas atividades obscuras. Renasceram como Marcola, dono de uma “boca” e Tirol, seu braço direito. Tempos depois, ela foi promovida a gerente da “boca” e rebatizada como Parma, e “passava” todos os inimigos de Marcola. Mas nem os lucrativos negócios evitaram que fossem trabalhar na Vara da Família. Há registros de, pelo menos, mais uma sobrevivente da tragédia bíblica.
Os descendentes de Abraão sofreram muito com a escravidão no Egito. O escriba-chefe, um homem de vasta cabeleira, cortava um dobrado pra fazer cumprir os desígnios de faraó e ouvir os muitos pedidos dos súditos. Uma egípcia estressada ia diariamente reclamar que não agüentava mais “essas guria hebréia”, que só ficavam cuidando da vida dela, e que se ele não tomasse uma providência, ela iria direto no faraó. O escriba ouvia, paciente, e se movimentava rápido entre um palácio e outro, andando de meia pelo deserto, sempre acompanhado de seu gato de estimação – animal sagrado naquele país – que o ajudava a supervisionar o trabalho dos escravos. Só parava pra descansar à sombra de um cactus e comer o seu sanduíche natural de papiro e flor de lótus. Um hebreu chato vinha toda hora solicitar audiência com o faraó - que apesar de ser carrancudo recebia todo mundo -, reclamando de tudo quanto era coisa: enchente, chuva de pedra, rãs, gafanhotos, ratos na comida e o escambau. Faraó mandava o escriba resolver e ele ia sempre deixando pra depois. Enquanto isso, o povo hebreu tinha que agüentar aquelas pragas. O escriba renasceu como o Calvo – o nome é auto-explicativo -, guia espiritual da Vara da Família.
No reinado de Salomão, o sábio rei às vezes precisava julgar casos muito difíceis. Certa feita, duas mulheres alegavam serem a mãe de um recém-nascido. O povo reunido fazia um alvoroço e o rei mal conseguia “conjuminar” as idéias. Uma mulher, cuja voz se destacava entre os demais, gritava em favor de uma delas, dizendo que a criança era a cara da vó. Indeciso, o rei chamou sua conselheira loura, que estava atarefada com a quantidade de alimentos que abarrotavam os celeiros reais. Depois de enviar um escravo para as minas do rei Salomão – embora achasse que ele iria atrás das filhas do monarca, que eram umas gatas -, a conselheira sugeriu que as mulheres entrassem num acordo, já que ainda não tinha sido inventado o exame de DNA: cortariam a criança ao meio e cada uma ficaria com metade. E assim foi feito. Diz a Bíblia que o Salomão resolveu a questão de outra maneira, bem mais salomônica, mas essa versão parece ter sido forjada. A conselheira reencarnou como a Escrivoa da Vara da Família, e continua zelando pelos alimentos.
Na Judéia, ao tempo do império romano, numa bela tarde uma judia loura caminhava lépida e fagueira pela rua do comércio de Belém. Entre uma prosa e outra, eis que avistou uma grande placa, escrita em bom aramaico: PERCEVEJOS – ATACADO E VAREJO. Sabedora de uns boatos que corriam sobre uma misteriosa estrela e um tal de messias que nascera numa estrebaria nas imediações, filho de gente da Galiléia – e todo mundo na época sabia que não pode vir boa coisa da Galiléia –, a judia loura, sempre muito zelosa da Torá, resolveu comprar várias e várias caixas de tachinhas. Quase desistiu, porque a atendente fingia que não tinha ninguém no balcão pra ser atendido. Mas finalmente veio algum estagiário atendê-la. Dirigiu-se à estrebaria, na calada da noite. Todos dormiam, inclusive o menino e as vaquinhas, apesar daqueles anjos que não paravam de cantar Gloria in excelsis Deo. Ela já os estava insuportando. As visitas estrangeiras ainda não haviam chegado. Sorrateira, encheu a manjedoura de tachinhas e saiu correndo, antes que a criança começasse a chorar. A judia perversa renasceu séculos depois, novamente loura mas com película, e uma poia, sem a esperteza de outrora, atendendo por muitas alcunhas, sendo a mais conhecida a de Sra. Weltzer.
Muitos anos depois, num domingo de muito calor, uma judia preta, imigrante de terras mais a oeste do Mar Vermelho, decidiu ir à praia. Como o Mar Morto era longe e ela gosta de coisas bem vivas, foi ao rio Jordão mesmo. E sabe como é judeu pobre, tem que levar o frango e a farofa. Mas os mercados estavam muito movimentados com a multidão que vinha atrás de um daqueles profetas malucos do deserto. E esse não era daquele tipo que multiplica pão e peixe, então todo mundo tinha que comprar mesmo. Ela acabou não levando o frango. Lá chegando, esticou uma toalha no chão, tirou a canga e ficou fazendo exposição da figura sob o sol palestino, se engraçando com um escravo etíope que não tinha nada de eunuco. Não fez top less porque o Levítico proibia. Havia uma fila enorme de pessoas esperando pra serem batizadas pelo tal profeta, e ela resolveu não entrar na água, que devia estar uma imundície com todo mundo fazendo as suas sujeiras. Uma mulher reclamava o tempo todo que estava estressada com a demora da fila. Lá pelas tantas, quando um jovem barbudo estava sendo batizado, uma singela pomba desceu dos céus, ficou voando sobre ele, enquanto uma voz em off, parecendo um trovão, vinda não se sabe de onde, falava algumas palavras às quais ela não prestou atenção. A essa altura, com o sol a pino, a fome bateu. Como a judia preta não era chegada a mel silvestre nem a gafanhotos, e a tal pomba tinha pousado a seu lado, não perdeu tempo: fez churrasquinho do Divino. Refeição que lhe custou a reencarnação como a Escura da Vara da Família.
Na capital da Judéia, poucos anos mais tarde, uma mulher iluminada e dotada de poderes mediúnicos cortava um dobrado pra fazer brotar algumas flores e plantas ornamentais nos jardins de seu palacete, no sopé do Monte das Oliveiras, onde nasceram todos os meus antepassados (mas isso não tem nada a ver). Mas também, como que umas plantinhas iam vingar naquela terra seca e infeliz? Só mesmo o cactus, símbolo de vigor que atravessaria os séculos. Como seus dotes botânicos eram muitos conhecidos em toda Jerusalém, foi a ela que o governador Pôncio Pilatos encomendou uma coroa de espinhos para uma execução concorridíssima no feriado da Páscoa. Ela reclamou que era brincadeira um pedido assim em cima da hora, ela cheia de pães ázimos pra cozinhar, cordeiro pra assar, a despensa sem nenhuma erva amarga, e ainda tinha que fazer antes do sábado, porque era proibido trabalhar. É brincadeira! Mas fez a coroa assim mesmo, com muito capricho, afinal foi o governador que mandou. Pediu pra sua assistente levar, mas pra (não) ajudar ela tinha se machucado com os espinhos e pegou um atestado. Mesmo sendo uma iluminada e tendo renascido como a Mãe Lilizinha, esta boa judia teve que cumprir seu carma e trabalhar na Vara da Família, onde fundou o congá conhecido como Canto B.
Enquanto isso, uma pequena multidão se aglomerava na frente do palácio de Pôncio. Uma jovem loura, magra que dava até nojo nas hebréias invejosas, e membro de uma seita pouco conhecida na época, a Seita dos Ceticozinhos - pequenos céticos, pessoas de pouca fé porque fé demais não cheira bem –, puxava o coro dos pobres, em resposta às indagações do governador: “Não há outro rei senão César! Crucifica-o!”. Uma judia preta ao seu lado emendou, pois era muito dadivosa e estava pegando um sujeito antes dele ser preso: “Solte Barrabás!”. Aquela que tinha pego atestado por causa do espinho, naturalmente tinha ido ver a arruaça, e gritava mais alto que todos: “Ele não! Solte Barnabé!” Alguém a corrigiu: “É Barrabás!” E ela: “É tudo a mesma coisa.” Quando o réu foi apresentado ao povo, com uma coroa de espinhos na cabeça, a judiazinha loura sem coração, louca pra ver o Gólgota pegar fogo, atiçava os outros: “Crucifica-o! Crucifica-o!” E assim aquele justo foi condenado à cruz. A multidão acompanhou a procissão, ouvindo a banda e o lamento da Verônica, rumo ao Hospital de Caridade (digo, ao Calvário). Não contente, aquele encosto seco ainda calçou o Filho do Homem por três vezes na subida do morro, fazendo-o ir ao chão. Hoje paga seus pecados pela segunda vez na Vara da Família, atendendo quando chamada de Sinhá Loura.
A Avó da Neta não tem carma. Ela é o carma de todos eles. E de qualquer forma, não pode expiar suas faltas nas sucessivas encarnações, pois só teve uma até agora, a única, haja vista tratar-se de um ser de idade incalculável, rivalizando com a própria Dercy Gonçalves. Sua história é muito longa e será contada oportunamente.
Tais foram as revelações do Doutor Z. E tem gente que diz que jogou pedra na cruz ou colou chiclete debaixo da mesa da santa ceia.

Rá!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Eu, Dercy, há dez mil anos atrás

TOMO II
Com Silvio Santos, o Sumo-Sacerdote do Baú, Dercy pariu as criaturas medonhas e abomináveis conhecidas como os Jurados, líderes do culto chamado “Show de Calouros”, dos quais os maiores expoentes eram Pedro de Lara e Araci de Almeida. Com Araci de Almeida, pariu a Marlene Mattos. E ainda com Silvio Santos, Dercy pariu uma voz desprovida de matéria muito apegada ao pai, que foi batizada de Lombardi.
Como Silvio passava por dificuldades financeiras trabalhando de camelô, Dercy inventou o carnê do baú para tirá-lo do aperto. Ele enriqueceu e lhe prometeu a casa própria, desde que ela ficasse em dia com as mensalidades, mas nunca cumpriu. Em segredo, Dercy adotou uma criança e transmitiu-lhe todos os seus conhecimentos. Anos mais tarde, essa menina seria o instrumento da vingança de Dercy contra Silvio, contando-lhe a piada do bambu, ensinada por Dercy. Mas Silvio Santos era mais esperto e preparou uma câmera escondida com Ruth Roncy, expondo as vergonhas de Dercy. Mas como ela era sem-vergonha e boca suja, não adiantou nada.
Desde então fizeram um pacto. Para cada palavrão dito por Dercy Gonçalves, Silvio Santos ganha um cruzeiro, ou a moeda em vigor na época, em barras de ouro que valem mais do que dinheiro, oieee...
Com Roberto Marinho, Dercy pariu Hebe Camargo, Lolita Rodrigues, Nair Belo, Renato Aragão, Cid Moreira e Léo Batista.
Hebe e Silvio Santos geraram o Chaves e o Gugu. Chaves e seus vizinhos morreram num acidente de avião e ficaram presos a este plano da existência, razão pela qual continuam se manifestando diariamente há décadas. Recentemente, inspiraram uma série de grande sucesso da televisão norte-americana. Gugu afeiçoou-se ao pintinho amarelinho e não gerou descendência.
Lolita Rodrigues inaugurou a TV Tupi e é a única pessoa viva a lembrar do hino da televisão brasileira, criada por Assis Chateaubriand por sugestão de Dercy, para que ela pudesse espalhar seus palavrões por todo o país.
Com Jamelão, o jovem, Dercy pariu Elza Soares, Mussum, Glória Maria e Zulu, a mulata que não ri. Ela chupou manga e deixou as sementes caírem na Estação Primeira, fundando a conhecida escola de samba. Tempos depois, rompeu com eles e foi desfilar com os peitos à mostra na Viradouro.
Cansada de viver em Madalena, Dercy saiu com a primeira caravana do Clube do Bolinha, levando consigo sua dileta filha Zulu, a mulata que não ri. Com Edson Cury, o Bolinha, Dercy pariu Golias, Fafy Siqueira, Zacarias e dona Wilma. Dona Wilma não pariu ninguém e, por isso, roubou o Pedrinho. Era final de ano e todos passaram o Réveillon no Ilha Porchat.
Nair Belo constituiu várias famílias e achava muita graça nisso. Com Golias, pariu a Família Trappo e o Carlos Alberto de Nóbrega. Com Rogério Cardoso, pariu a Grande Família. Para não ficar incomodando em casa, Dercy matriculou o genro, sob o pseudônimo de Rolando Lero, na Escolinha do Professor Raimundo, onde conheceu este último, com quem teve numerosa descendência. Como o salário dele era pequeno e não podiam sustentá-los, Dercy abandonou todos na roda dos excluídos, que ainda funcionava naquela época. Muitíssimo tempo depois, o Senhor chamou Nair Belo, que no início se fez de surda e não quis ouvi-lo, mas acabou cedendo porque a zorra seria total.
Cid Moreira e Léo Batista ficaram amigos de Sérgio Chapelin, que gostava muito de programas sobre animais, e adotaram a Zebrinha do Fantástico, que logo aprendeu a falar “Boa noite”.
Com Beto Carrero, Dercy pariu Dedé Santana. Ele se uniu a Didi, Mussum e Zacarias e criaram Os Trapalhões, que destruíram de vez o cinema nacional. Numa experiência genética fracassada e feita em segredo, pois era proibido o uso de células-tronco embrionárias, Os Trapalhões geraram o Sargento Pincel. Zacarias e Mussum morreram e, apesar de idas e vindas, Didi e Dedé continuaram unidos. Na vida é tão bom ter amigo.
Com Fidel Castro gerou o asqueroso e terrível Lula, uma anomalia sanguessuga que vive nas profundezas do mar, assemelha-se a um sapo barbudo e tem a língua presa. Este ser tem o poder maléfico de expressar-se por meio de metáforas sobre futebol e de nunca, em hipótese alguma, perder sua popularidade.
Todos esses eventos nada mais foram do que a preparação para sua maior obra: as novelas da TV Manchete, em que Dercy pretendia interpretar Dona Beija, Juma Marruá, Xica da Silva e cantar o Canto das Sereias, sendo porém recusada por questões estéticas. Por vingança, ela exigiu que Silvio Santos retirasse as fitas beta do fundo do Baú e as reprisasse incansavelmente, logo após o Chaves.
Dercy pariu mais de 500 mil crianças ao longo de seus incontáveis anos de vida, mas pelo menos umas 100 mil morreram ao nascer, por ver o rosto da mãe. Todos aqueles que enumeram os filhos de Dercy enlouquecem. Esse panteão de criaturas de pesadelo é conhecido pelo nome coletivo de FILHOS DA PUTA.
Por incrível que pareça, Dercy nunca havia se entregado aos prazeres sensuais do carnaval baiano. Após recuperar-se de um acidente automobilístico em que, obviamente, não sofreu um arranhão, Dercy passou um ano em Santo Amaro da Purificação, BA, comemorando o aniversário de sua amiga de infância, dona Canô Veloso. Lá também reencontrou aquele menino muito inteligente, Oscar Niemeyer, com quem ela se divertia em tenra idade, construindo cidades de concreto armado na praia.
Diz a lenda que, para saber a idade de Dercy, seria preciso contar o número de rugas em todo seu corpo, número este que aumenta de milênio em milênio. E quem conseguir fazê-lo, absorve seu dom da imortalidade. Porém, nenhum olho humano pode observar aquele corpo, e nenhum ser vivo do universo tem mente o suficiente pra gravar tamanha quantidade de rugas. Além disso, a cada segundo perdido por ter que reiniciar a contagem, zilhões de rugas novas aparecem. Os atuais métodos de análise de DNA e datação por carbono-14 são igualmente incapazes de chegar a um resultado preciso, pois mesmo com toda a evolução da cibernética, não há computadores capazes de fazerem o cálculo.
Meditando em templos do paganismo, os iluminados Mestre Yoda, Nostradamus, Walter Mercado, Chica da Silva Xavier e Mãe Lilizinha do Canto B capturaram um vislumbre do mais terrível e apoteótico futuro já previsto, no qual Dercy Gonçalves morria. Virgem. Tal futuro, segundo eles, significaria o Fim dos Tempos, pois eles mesmos profetizaram: “666 segundos antes do fim de tudo, Dercy Gonçalves, O Ser Eterno, irá morrer.” Dizem que somente o Padre Voador pode atestar a veracidade dessa profecia, pois ele viajou até o Fim dos Tempos, mas infelizmente seu paradeiro atual é desconhecido. É possível que Dercy o tenha mandado pra PUTA QUE O PARIU.
(Essas informações foram obtidas das mais diversas fontes, todas antiqüíssimas e fragmentadas. Pode-se citar aqui o Necronomicon, livro gentilmente divulgado na nuvem virtual pelos abnegados pesquisadores da Desciclopédia; as Memórias da Avó da Neta, ainda em manuscrito, pois nenhuma editora aceitou publicar tantos volumes (essa obra deve ser aceita com cautela, pois muitas informações podem ter sido falseadas, dada a pré-histórica rivalidade entre as duas); e partes só recentemente traduzidas da epopéia de Gilgamesh, dos evangelhos apócrifos, do Silmarillion e do romance Guerra e Paz.)

Só vou morrer quando eu quiser

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A caravela amarela – 25 a 28/12/2007

LONDRES
Senhora Minha Mãe Lilizinha,
Hei de contar a nova do achamento destas terras britânicas, que ora nesta navegação se acharam, e não me furtarei de lhe relatar, assim como eu melhor puder, estas belezas e riquezas d'além mar, se assim mo permitirem a Providência e a imigração. Creia bem por certo que registrarei aqui tão somente o que vi, o que imaginei e o que julguei ter visto, em sã ou insana consciência, que é bem dizer, qualquer coisa que me dê nas telhas.
No dia do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, verbo feito carne que veio habitar entre os homens, a nau aportou nas terras que, segundo relatos mui antigos, encontram-se sob o governo da imortal rainha Elizabeth II, filha de Cate Blanchet, cujos ancestrais vieram das terras altas mais ao norte, aparentados de Christopher Lambert. Tio Eric Hobsbawm, que viu todas essas coisas, poderá explicar melhor.
Chovia, e poucas ocasiões tivemos, durante a longa estada naquelas paragens, de ver o azul do céu. O que não nos chegou a entristecer, pois as precipitações e o acinzentado do firmamento davam um ar deveras sofisticado ao lugar.
Os nativos a mim me pareceram pessoas mui religosas, pois numa vila de tão grandes dimensões, poucos se dedicavam ao trabalho naquele dia feriado, e quase não conseguimos deslocar-nos às regiões habitáveis, porque todos os meios de transporte encontravam-se parados. Mas enfim logramos êxito, e chegamos a um bairro com casas de tijolinhos vermelhos, e soubemos que era o sítio certo.
Os habitantes do lugar são de todas as espécies e qualidades. A feição deles é serem de uma tonalidade escura, as mulheres usam um adesivo na testa, e são donos de mercadinhos de comida para microondas e outras especiarias, o que muito nos confundiu, pois de há muito que o astrolábio, a bússola e o GPS nos ensinaram o correto caminho para as Índias, e não deveria ser ali. Há também muitas pessoas de olhos puxados, com máquinas fotográficas, e que podem ser vistas por toda parte. Outros são negros, outros morenos e até alguns poucos loiros. De todo modo, são pessoas recatadas, muito ocupadas de cobrir suas vergonhas, e extremamente dóceis.
Seu idioma é deveras esquisito, um inglês de pronúncias estranhas; possivelmente não são dados a assistir aos originais e sempre bem elaborados filmes americanos, para se aperfeiçoarem - embora Sua Majestade tenha ganhado um Oscar. De quando em quando ouve-se pelas ruas a língua mátria, que os eternos Camões e Manuelito tanto cantaram em verso e prosa.
Fazem tudo ao contrário, como que a pregar uma peça com os visitantes. Invertem a direção dos automóveis, dirigem pelo lado esquerdo, tudo para pegar os estrangeiros no susto, sempre exercitando o sofisticado humor inglês. São educadíssimos e respeitam os sinais de trânsito, mas reprimem um impulso destrutivo de atropelar pedestres mal-educados que atravessam quando o sinal lhes não permite.
Tanto apreço nutrem pela pontualidade que decidiram eles mesmos organizar as horas do mundo. E sua principal atração é um relógio sem nome numa torre, o qual, na falta de identidade própria, apropriou-se do nome do sino. Em frente a ele, do outro lado do Tâmisa, a mais simples e graciosa atração, que a nosso modo de ver ofusca os séculos de tradição do Big Ben: London Eye, o olho de Londres, nome perfeito para a encantadora roda-gigante de onde se pode ver boa parte da vila. E, agraciados que fomos por St. Stephen no dia de sua glória, pudemos fazê-lo num dos raros dias de sol inglês.
Lojas são muitas; infindas. E em tal maneira convidativas ao consumismo que, querendo-as aproveitar, compra-se nelas tudo, coisa que não fizemos, pois os nativos ficaram com todo o ouro e prata de Potosí e das Gerais, e nossos reais são modestos perto de sua moeda. A bem da verdade, mesmo seus vizinhos mais próximos torcem o nariz para os salgados preços.
Para os supersticiosos, é terra povoada de espíritos cautelosos e sobremaneira preocupados com a segurança dos que ainda se encontram entre os vivos, os quais habitam os túneis do metrô. Nós mesmos, ainda que céticos, não cessamos de ouvir, a todo momento, uma voz, ora masculina, ora feminina, advertindo-nos do perigo da morte certa: "Please, mind the gap between the train and the platform. "
E nesta maneira, minha mãe, dou-lhe aqui breve relato do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, sei que hás de me perdoar, que o desejo que tinha, de vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo. Mas hei de escrever mais.
Beijo-lhe as mãos e peço-lhe a bênção.
Desta Londres, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, nestes últimos dias do ano do centenário de Dercy Gonçalves, Oscar Niemeyer e dona Canô.
Dom Marquinho


Thank's to Richard the Lionheart, Mel Gibson the Braveheart, Mary Stuart and Mary Poppins. God save me!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Eu vi gnomos

CANTO I
Canta, ó Musa, a história daqueles pobres, feios e que moram longe, como eles se reuniam no Templo, uma das maravilhas da antiga Desterro (veja listagem completa), para o exercício da democracia e do dom divino de falar da vida alheia, e como a Elite Parasitária, mesmo não preenchendo os requisitos, conseguiu fazer parte desse seleto grupo, o que não garantiu que ficasse fora da pauta.
É Mãe Lilizinha do Canto B, na falta de uma adequada pítia do oráculo, que nos conta, de pé na porta da antiga biblioteca do Templo, mesmo correndo o risco de desabar junto com os cupins, em êxtase, inalando a fumaça espiritual que sobe pelas escadas, expelida não pelas entranhas da terra, mas pelos estranhos Amigos do Desconstrutor.
No princípio, Deus, até então único, criou a FAED. A FAED, porém, era muito quente e Deus começou a se abanar. Em seguida, Deus criou os acadêmicos. O Pulguento foi o primeiro. Depois criou vários outros, alguns de aspecto esquisito.
Deus viu que os acadêmicos não tinham lugar pra ficar, e colocou-os no auditório da FAED. Mas as coisas escorregavam da carteira e eles não gostaram muito. Deus achou aqueles acadêmicos muito acomodados e com pouco ímpeto revolucionário, o que não seria bom para sobreviver na FAED. Então criou a Fujona, que era subversiva e poderia ajudá-los. Mas os acadêmicos desconfiavam dela, pois nunca viram o seu marido.
E Deus disse: não é bom que os acadêmicos passem fome. E criou a Marivone. E a Marivone trouxe o bolo. Então, Deus mandou fazer uma festa. Mas como ninguém tinha a iniciativa de marcar uma, comeram lá mesmo.
Deus continuava sentindo calor, e colocou dois ventiladores no auditório. Mas os ventiladores não refrescavam. Como eles eram muito calouros, Deus enviou um sujeito de sotaque estranho para fazê-los se apresentar e tirar dinheiro deles. Naquele mesmo dia, souberam qual era o grande rio da Mesopotâmia, e tiveram de reverenciar a Rainha do Nilo (hein?).
Para que não continuassem perdidos em meio às maravilhas da FAED, Deus criou a Professora Daniela para guiá-los, e desde então ela sempre esteve lá.
Naquela época, as pessoas tinham mais fé, e viam seres metafísicos entre eles, alguns prestes a transcender ao plano astral. Eram chamadas de Gnomo e Cristal. E Deus viu os cultos pagãos, e as crenças em gnomos, e decidiu que aquela heresia não podia continuar. Então resolveu dar aos acadêmicos algo maior em que acreditar. E criou a Rosângela Cherem. E a colocou num altar. E o chão cedeu.
Deus tinha uma grande dúvida em sua mente, e sempre a formulava a seus anjos. Como os anjos não lhe respondessem mais, ele resolveu que criaria alguém para perguntar aos acadêmicos. E criou o professor de geografia.
E Deus achou que já tinha criado coisas demais, e que devia descontruir tudo. Então criou o Desconstrutor. Mas o Desconstrutor resolveu dar 5 aulas num único dia e os acadêmicos não agüentavam. Então Deus resolveu amenizar-lhes o sofrimento, e criou o intervalo e a pipoca Bilu.
Intervalo...
.

R$ 0,05 o sachet

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Not alive people

Ai! Minha mãe
minha mãe Menininha
Ai! Minha mãe
Menininha do Gantois
A estrela mais linda, hein
tá no Gantois
E o sol mais brilhante, hein
tá no Gantois
A beleza do mundo, hein
tá no Gantois
E a mão da doçura, hein
tá no Gantois
O consolo da gente, ai
tá no Gantois
E a Oxum mais bonita hein
tá no Gantois
Olorum quem mandou essa filha de Oxum
tomar conta da gente e de tudo cuidar
Olorum quem mandou eô ora iê iê ô
Este blog só podia começar com uma loirice. Passei a vida fazendo um trocadilho errado. Sempre achei que fosse Cantuá e não Gantois. Mas foi com base nesse erro que descobri a minha guia espiritual de todas as horas. Não é a Mãe Menininha do Gantois, ou do Canto A, que há muito encontrou-se com o mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a Terra. Trata-se de Mãe Lilizinha do Canto B, médium vidente clarividente que atende nas cercanias da Grande Florianópolis, certamente inspirada pela tradicional ialorixá baiana, que lhe sussurra aos ouvidos os mistérios “do aquém, do além, da donde que véve os mortos”. Ela é o oráculo a quem este Louro sempre recorrerá para atingir a sabedoria das esferas e melhor contar certos causos presentes, passados, futuros, e até uma certa mistura do moderno com o contemporâneo.
E lá se vai o primeiro parágrafo, que somente eu entendo por completo. Afinal, tudo o que escreverei aqui, como aquele comercial onde vemos o Fofão, o Jason e sabe-se lá que outros terrores da infância levando o rapaz até o seu destino – o carro novo -, é a síntese de várias correntes de pensamento na qual bebi: a francelina, a pensionista, a venenosa, a faediana, a marquesina, a cartorária e, especialmente, a insana.
Bem-vindos ao Canto B. Sintam-se bem confortáveis. Bom, nem tanto, todo mundo sabe que sou avesso ao convívio social, a outros seres vivos dividindo o mesmo espaço que eu e, naturalmente, a excessos de visitas. Não deixem esse blog se tornar popular, não combina com a minha tez.
Escrevam à vontade. O que não quer dizer que seus comentários serão todos publicados aqui, pois é claro que exercerei livremente o meu direito à censura prévia, e só aceitarei comentários que me favoreçam. Eu não tô aqui pra prejudicar a minha própria imagem.
E, como provavelmente ninguém vai notar, obrigo-me a dizer. Não é por acaso que este blog nasce no dia 02/11. Como todos sabem, nasci no dia 02/08/1978. Ano que vem completo 30 anos. Como não posso precisar a data exata em que os núcleos se fundiram e formaram o zigoto, admito para fins didáticos que o Popular Canela e Mamãe Oliveira encomendaram-me à cegonha exatamente nove meses antes, ou seja, em 02/11/1977. Dia de Finados. Sim, eu sou uma assombração. Bem viva. Que comecem as comemorações. Dercy, Niemeyer e dona Canô, daqui a 71 anos sou eu!
Saravá!

Maria Sangrenta, Maria Sangrenta, Maria Sangrenta!