quarta-feira, 15 de julho de 2009

O clã dos Francelino

Todo ano, por ocasião das festividades da data natalícia de minha mamadi Mamãe Oliveira, procuro fazer uma reflexão sobre a origem e importância do clã dos Francelino neste mundo. Nenhumas, claro. Certa feita, empenhei-me em árdua pesquisa, que me revelou as parcas informações agora trazidas à baila.
Fradique, Francelino, Francisco: significa "relativo aos franceses" e indica uma pessoa de caráter firme e audaz, mas que encontra problemas no relacionamento social porque quer que sua opinião sempre prevaleça.
Faz bastante sentido. São tudo gente teimosa e de gênio ruim.
Francelino - Diminutivo de Francélio.
Francélio - nome poético criado pelo escritor Bingre.
Fui atrás do tal Francélio e do tal Bingre, dos quais, ouso dizer, nunca tinha ouvido falar. Quase não há informações. Apurei que Francisco Joaquim Bingre era um poeta português dum movimento chamado Nova Arcádia (do qual nunca ouvi falar tampouco), nascido em 1763, na freguesia de S. Thomé de Canellas, bispado de Coimbra, Portugal, pois. Ele usava o pseudônimo de Francélio Vouguense. Segue o assento de baptismo do dito.
ASSENTO DE BAPTISMO
Aos dezesete dias do mêz de Julho de mil setecentos e sessenta e três, baptizei a Francisco Joaquim, filho legítimo de Manuel Fernandes e de Ana Maria Hibingre, da Pedregosa, desta frequezia de S. Thomé de Canellas, bispado de Coimbra; neto paterno de Manuel Frernandes, e de sua mulher, Joanna Dias, d'esta freguezia de Canellas e materno do capitão Gaspar Hibingre e de Maria Catharina Hibingre, da cidade de Viena d'Austria. Nasceu aos nove do dito mêz e anno. Foram padrinhos Francisco da Silva Martins e Maria, donzella, filha de Manuel João de Figueiredo, da mesma freguezia, e testimunhas o M. R. P. António da Trindade, e Domingos Dias Henriques: do que tudo fiz este assento, que assignei. Era ut supra. O cura José dos Santos Barbosa Carrancho - P. António da Trindade - Domingos Dias Henriques.
As datas me assombram. Se vivo fosse, Francélio teria completado na última quinta-feira 246 anos, certamente tomando caldo verde em alguma quinta da freguesia de Canelas. Percebi uma tênue ligação com a minha árvore genealógica. Afinal, Canela era a alcunha do meu pai, que assim se apresentava à sociedade da Laguna e cercanias: Geraldo de Oliveira, popular Canela. Mas ele não era um Francelino, apenas casou com uma. Ou, antes, fugiu. Antigamente as pessoas não casavam, fugiam.
Dando prosseguimento à minha pesquisa, encontrei uma frase de Bocage, poeta português tido como pornográfico, que menciona o tal Francélio:
"Ferve no audaz Francélio, e rompe os astros
Sacro delírio, destemida insânia."
Essa origem me agradaria mais, visto que os Francelinos são bem desbocados. Alguém de minha parentela certamente louvaria o quão grande "poeteiro" era o Bocage. Mas não faço a menor ideia do que seja o Francélio a que ele se referiu.
Diante de informações tão disparatadas, não entendi patavina. Sobre a origem do clã dos Francelino, nada. Deve ser como diz a tia Zeza: "São lá do meio do mato."

Eu nasci assim, eu cresci assim

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Recordar é viver

O Show do Milhão voltou. O No Limite está voltando. Jesus voltará. E a Dercy. Como diria o Silvio Santos, "aguardemmm".

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Fiquei pensando que...

- Será que eu e você somados formamos...
Será que a centelha habita em mim, porque ainda não tomei a primeira...
Será que encontrarei o...
Acho que não, porque não sou do tipo de...
Mudando de assunto, não esquece de falar com o sr. Weltzer sobre...
Não perca hoje à noite mais uma reviravolta no...
Beijos do...
- Meu Deus, ainda tô rindo. Tô toda dolorida de tanto...
Tinha certeza de quando você lesse essa parte do livro você...
Isso me dá uma puta de uma sensação de liberdade. Como é bom falar pela metade. Ah, que se lasque quem não entender. É mais um charminho nosso. Pena você não estar mais trabalhando aqui. Depois desse livro tenho certeza que nós...

Heein? Vitroola!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Don't stop 'till you get enough

Michael Jackson é mais um caso dentre muitos, de pessoas que foram abduzidas por seres extraterrestres e substituídas por cópias imperfeitas. Agora que o clone alienígena branco morreu, quem sabe eles devolvam o original preto. Há quem não creia nessa versão e aceite o fato de que ele realmente se encontrou com o mal irremediável. Quem mandou vender a Terra do Nunca. Lá, além de não envelhecer, esse tipo de coisa nunca aconteceria. Para os que creem em outro tipo de vida além-Terra, é preciso fé: um dia, o líder dos Jackson 5, rei multicor do pop, que era o mundo e era as crianças que fazem o dia mais iluminado, retornará do mundo dos mortos, dançando com um corpo de balé zumbi, para revolucionar a música pop do século XXI, há tanto tempo na mesmice. 'Cause this is thriller. E está entrando no ar o Video Show.
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Woooooow! Lovely is the feeling now
Fever, temperature's rising now
Power (ah power) is the force the vow
That makes it happen
It asks no question why (ooh)
So get closer (closer now) to my body now
Just love me 'till you don't no how (ooh)
(BRIDGE 3X)
Keep on with the force don't stop
Don't stop 'till you get enough
Touch me and I feel on fire
Ain't nothin' like a love desire (ooh)
I'm melting (I'm melting) like hot candle wax
Sensation (ah sensation) lovely where we're at (ooh)
So let love take us through the hours
I won't be complaining
'Cause this is love power (ooh)
(BRIDGE 4X)
(Ooh!)
Heartbreak enemy despise
Eternal (ah eternal) love shines in my eyes (ooh)
So let love (ah let love) take us through the hours
I won't be complaining (no no)
'Cause your love is alright, alright (ooh)
(BRIDGE 8X)
Lovely is the feeling now
I won't be complaining (ooh ooh)
The force is love power
(BRIDGE 15x)
(FINAL)

HAHAHAHAHA

terça-feira, 23 de junho de 2009

Dercy, o ser eterno

Há quem acredite que Dercy morreu. Na verdade, ela apenas se recolheu em sua pirâmide para um período de repouso, por alguns anos, talvez séculos. Afinal, a percepção de tempo dos Antigos é bem diferente da dos reles mortais. Ela já fez isso antes, em outras oportunidades, como exaustivamente relatado neste blog. E retornará quando menos esperarmos. Tal qual Mumm-Ra, invocará os espíritos, não do mal, mas do riso e da galhofa, e transformará aquela forma decadente em Dercy, a de vida eterna. Sairá de sua pirâmide e proferirá um palavrão, que se fará ouvir em todos os cantos do mundo. Até lá, continuamos comemorando o seu aniversário. Feliz 102, 103 ou sabe-se lá quantos anos! Volta, Dercy!
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A morte é linda... mas a vida também é muito boa!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

EXTRAviados - A tragédia da vida real

31/05/2009
Última sobrevivente do Titanic morre aos 97 anos na Inglaterra
Millvina Dean, a última sobrevivente do naufrágio mais famoso do mundo, o do Titanic, morreu neste domingo (31) na Inglaterra, aos 97 anos, anunciou a imprensa britânica.
Dean tinha apenas dois meses quando aconteceu a tragédia no Atlântico, quando o navio se chocou com um iceberg. Sua família tentava emigrar para o Kansas, nos Estados Unidos, para começar uma nova.
A mãe e um irmão haviam também sobrevivido, mas Millvina Dean perdeu o pai no naufrágio, somando-se aos 1.500 mortos. Nascida em 12 de fevereiro de 1912, ela era a mais jovem passageira a embarcar no Titanic.
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História difícil
Após o naufrágio, retornou com a família a Southampton. Segundo o site Encyclopedia Titanica (ET), Dean trabalhou como cartógrafa para o governo durante a 2ª Guerra Mundial e, depois, para uma empresa de engenharia.
Os restos do transatlântico foram descobertos em 1985 e, a partir daí, vivia sendo solicitada para documentários e entrevistas. Em 1997, aceitou um lugar no navio Queen Elizabeth 2 para concluir a viagem tragicamente interrompida.
Mas chegou a recusar um convite para a estreia do filme "Titanic", muito emocionante para ela. Ela mal conseguia pagar as contas da casa de repouso onde vivia.
Em outubro de 2008, conseguiu coletar 31,1 mil libras (quase R$ 100 mil) após ter leiloado objetos vindos do navio ou que remontavam à época. Foi obrigada a vender uma valise de mais de um século cheia de roupas dadas à sua família por moradores de Nova York quando chegou aos Estados Unidos após ter sido socorrida.
Após os leilões, amigos e membros da British Titanic Society e da Belfast Titanic Society se mobilizaram para ajudá-la. Entre os doadores figuravam os atores Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, astros do filme "Titanic". Os dois e o diretor do filme, James Cameron, chegaram a doar US$ 30 mil no total.
A última sobrevivente americana, Lillian Asplund, morreu em maio de 2006 aos 99 anos. Ela tinha cinco anos no momento do naufrágio.
O Titanic, famoso pelo luxo de suas instalações, foi construído com a finalidade de servir de transporte entre os Estados Unidos e Europa pela empresa britânica White Star Line. Era notável por suas dimensões, na época.
O acidente ocorreu na madrugada do dia 14 para o dia 15 de abril de 1912 e só foi descoberto em terra graças a um radioamador que escutou os pedidos de socorro, em Nova Jersey. O Titanic afundou em sua viagem inaugural, quando fazia o trajeto entre Southampton (Inglaterra) e Nova York.
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01/06/2009
Avião da Air France desaparece do controle aéreo no litoral brasileiro
Um avião da companhia Air France desapareceu nesta segunda-feira do controle aéreo no litoral do Brasil, informaram fontes aeroportuárias francesas. O voo AF 447 decolou na noite de domingo do aeroporto do Galeão (Tom Jobim), no Rio, e deveria pousar no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, por volta das 11h local (6h de Brasília).
Segundo a Air France, o avião é um Airbus A330 e levava 216 passageiros e 12 tripulantes.
"A preocupação é muito grande. O avião desapareceu dos monitores de controle há várias horas. Pode ser uma falha técnica dos radares, mas este tipo de avaria é pouco comum e o avião não pousou às 11h10 como estava previsto", declarou uma fonte aeroportuária.
A Aeronáutica informou que as buscas serão feitas no oceano Atlântico. Inicialmente, um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) deve refazer o percurso do Airbus da companhia aérea. O último contato entre os ocupantes da aeronave e o Brasil foi feito ainda na noite de ontem.
De acordo com a Aeronáutica, a região onde ocorreu o desaparecimento não tem radares, e a comunicação é feita por rádios de longo alcance. A FAB informou que tenta identificar a distância aproximada do desaparecimento, a partir de Recife (PE).
Em entrevista à TV Globo, o tenente-coronel aviador Henry Wilson Munhoz Wender, chefe da divisão de relacionamento com a imprensa da FAB, afirmou que aeronave sumiu no rumo entre o Nordeste brasileiro e a Europa, na Ilha do Sal. Munhoz explicou ainda que o departamento de controle do espaço aéreo tem uma cobertura que corresponde a três vezes a dimensão do Brasil.
Em nota, a Air France informou que "divide a emoção e a inquietação das famílias envolvidas". "Os familiares serão recebidos num local especialmente reservado no aeroporto de Paris Charles de Gaulle 2, assim como no do Galeão", diz a nota.
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03/06/2009
Submarino que encontrou Titanic será usado em busca de caixa-preta do avião da Air France
O minissubmarino francês Nautile, usado em operações de busca das carcaças do Titanic, deverá participar do resgate das caixas-pretas do avião da Air France que caiu no Atlântico na segunda-feira.
O Nautile, que também ajudou nas buscas pelo petroleiro Prestige, que causou um desastre ecológico na Europa em 2002, está sendo levado para o local onde os destroços do avião foram vistos, a cerca de 700 km de Fernando de Noronha, pelo navio francês Pourquoi Pas.
O minissubmarino, normalmente operado por dois pilotos e um observador, é equipado com braços motores e pinças e pertence ao Instituto Francês de Pesquisas para a Exploração do Mar (Ifremer, na sigla em francês). Ele deve integrar as operações de busca a pedido do governo francês.
O Nautile foi o primeiro submarino a alcançar a carcaça do Titanic, que estava no fundo do mar desde 1912, depois que o navio foi detectado por sonares franceses no Atlântico Norte.
Desde o início de suas operações, em 1984, o Nautile já realizou mais de 1.500 trabalhos de busca. O submarino pode mergulhar a profundidades de até 6.000 metros.
O ministro francês dos Transportes, Jean-Louis Borloo, solicitou que o navio Pourquoi pas, em missão nos Açores, se dirija imediatamente ao local das buscas para ficar à disposição do núcleo de coordenação do Estado Maior das Forças Armadas da França.
O Pourquoi Pas deve chegar à área em oito dias, disse à BBC Brasil o porta-voz do Estado Maior das Forças Armadas da França, comandante Christophe Prazuck.
A missão do Pourquoi Pas é tentar localizar e recuperar as caixas-pretas do avião da Air France.
Com esse navio equipado de um robô e do minissubmarino Nautile, o governo francês quer reforçar os meios mobilizados na realização das buscas.
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Caixas-pretas
O objetivo prioritário é recuperar as caixas-pretas do avião, que emitem sinais durante 30 dias. Para isso, a primeira tarefa será localizar de maneira mais precisa a possível área onde o aparelho caiu, afirma Olivier Lefort, diretor de operações navais do Ifremer.
Segundo Lefort, a área em que foram encontrados destroços do avião vai servir de ponto de partida para calcular o possível o ponto de impacto da nave.
Quando a área em que estão as caixas-pretas for localizada, o que pode ocorrer inclusive com a utilização de um sonar, os dois equipamentos a bordo do Pourquoi Pas, o submarino Nautile e o robô Victor, devem ser acionados para recuperá-las.
Na avaliação do diretor do Ifremer, o Nautile, equipado com um sonar lateral, é melhor adaptado às operações de localização, já que o submarino é ocupado por dois pilotos e um observador.
"O olho humano tem maior precisão do que as câmeras de vídeo e de foto do robô", afirma Lefort.Mas tanto o Nautile quanto o robô não podem serrar a fuselagem do avião, se for necessário.
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I was just wondering if you had found the "Heart of the Ocean" yet.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

EXTRAviados - The making of

México. Uma ilha paradisíaca. Sol, chuva, vento, picadas de mosquito. Nada de javalis, mas muitas criações de porcos. E vários meios de transporte para reunir um elenco estelar no maior sucesso de público e crítica do ano. Cheire um pouco de pó de pirlimpimpim, surfe na Grande Onda, pegue um helicóptero numa tempestade, ou um cruzeiro turístico, enfim, dê o seu jeito e não chegue a seu destino, tornando-se mais um dos Extraviados.
A série do ano. Atualizada de acordo com a reforma ortográfica, mas convivendo com a ortografia antiga ainda em vigor, conforme se trate do presente ou de flashbacks, os roteiristas de Extraviados utilizaram múltiplas referências. Literatura universal e brasileira, adulta e infantil. A história da televisão e da propaganda brasileiras. Os grandes sucessos do cinema e da televisão norteamericanas. Fatos nunca revelados dos bastidores da sinistra política nacional. A religiosidade popular lagunense. Mistérios da meia-noite que voam longe... e que conquistaram uma legião da boa vontade de fãs na Terra de Santa Cruz e alhures, especialmente nos países de língua portuguesa e na Espanha.
"Foi maravilhoso participar desse projeto único", disse a atriz brasileiro-espanhola BOA, que fez uma participação especial nesta temporada, no papel dela mesma.
Uma das principais locações foi uma ilha intocada do México, onde a equipe passou o que nenhum ferro passou.
"Filmávamos muitas horas por dia, debaixo de um sol de rachar. Bah, aquele calor, como sua a...", gracejou o ator que interpreta Sandro Patrício.
Mas a equipe logo aprendeu com a população nativa e adotou os hábitos locais para melhor conviver naquele clima: passaram a tirar longas siestas após o almoço, até o meio da tarde, à sombra das árvores. Isso atrasou consideravelmente as gravações, especialmente por culpa dos roteiristas, que perdiam horas e horas dormindo e não escreviam os episódios em tempo. Muitos acharam que fosse uma nova greve dos roteiristas, agora sindicalizados no México, mas foi apenas preguiça e lomba mesmo. Por conta disso, Extraviados quase foi cancelada já no quarto episódio.
"A bem da verdade, passamos por muitos maus bocados durante toda a produção. Penso que só concluímos os trabalhos porque a equipe era muito dedicada e as ideias eram estimulantes", confessa o ator que interpreta Manuelito.
E esses meses não foram mesmo fáceis para o elenco e os produtores. Muitos tiveram problemas gastrointestinais com a comida apimentada e os feijões saltitantes. Alguns atores não apareciam pra gravar. Uma das atrizes veteranas ia dançar todas as noites e no dia seguinte mandava trazer um atestado médico, pra não gravar. Só não foi demitida porque seu personagem é muito importante para a mitologia da série. E dizem as boas línguas que alguns quase foram cortados da série porque apareciam pra gravar frequentemente de porre.
"Dizem que toda noite tinha festa regada a muita tequila. Mas eu nunca fui, só ouvi dizer. Também não sei quem foi, não gosto de fazer maledicência", desconversa a atriz que interpreta H. Brandão.
Houve o caso comovente do integrante que ficou afastado por problemas no pâncreas, mas que completou a temporada com muita garra.
Quando tudo parecia superado, metade da equipe foi acometida pela famigerada e temida gripe A. Para os íntimos, gripe suína. Foram momentos de intensa preocupação, o elenco passou por uma longa quarentena, recebendo alimentos e medicamentos por via aérea, lançados pelo exército mexicano. Nos estúdios da TVS, chegou-se a cogitar de abortar o projeto.
"Seria lamentável terminar a série de uma hora pra outra, com tantas pontas soltas. Nós não aceitaríamos isso", disse com misto de indignação e alívio ZB, brasileira fanática pela série.
Mas a genialidade da série e o esforço conjunto superaram todos os contratempos. Entre problemas com os correios, pandemias globais, ameaças nucleares de ditadores malucos parecidos com o Chico César e outras desventuras em série, Extraviados chegou ao seu season finale com recordes de audiência, sucesso de público e crítica. Inteligência, aventura, mistérios, reviravoltas surpreendentes e um refinado senso jurídico-crítico fazem dela a maior série da atualidade. Tudo pode acontecer nesta emocionante história de pessoas extraviadas numa ilha misteriosa.
A famosa médium Mãe Lilizinha do Canto B já foi chamada para abençoar o set de filmagens para a próxima temporada, pra esconjurar o mau olhado e evitar a repetição de tantos infortúnios. Mas a vidente já advertiu: "Sinto que outra grande tragédia se aproxima. E será em breve."
E agora, quem poderá nos ajudar?
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Eeeeeu! Atchim!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Extraviados - Vale a pena ver de novo

CENA 1 – SÃO PAULO - ESTÚDIO DA TVS – INTERIOR - DIA
Flashback. Imagens de arquivo. Início do programa. AUDITÓRIO animado canta a música-tema do programa. A cada estrofe, um convidado entra.
AUDITÓRIO
O Silvio Santos lá
la la la la la lá
la la la la la la la la la lá
la la la la la lá la la la la la lá
la la la la la la la la la lá,
Pedro de Lara lá,
la la la la la lá
la la la la la la la la la lá
la la la la la lá la la la la la lá
la la la la la la la la la lá
A câmera afasta-se aos poucos, mostrando que na verdade é um programa passando na televisão.
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CENA 2 – ILHA - CÁPSULA DO TEMPO – INTERIOR – NOITE
SANDRO Patrício, cabelos castanho-claros ondulados, olhos azuis, veste roupas do início dos anos 1990. Está animado, sentado no sofá, comendo pipoca e bebendo Teem num copo de vidro da Coca-Cola escrito em árabe. Assiste ao programa e canta junto.
AUDITÓRIO/SANDRO
Aracy de Almeida lá,
la la la la la lá
la la la la la la la la la lá
la la la la la lá la la la la la lá
la la la la la la la la la lá
Batem à porta. Sandro faz uma cara de quem não queria ser interrompido.
SANDRO
(tom elevado)
Já vai!
Sandro vai até a porta e espia pelo olho mágico. MANUELITO está do outro lado, ensopado pela chuva e tremendo de frio.
SANDRO
Quem é?
MANUELITO
(tremendo muito, as palavras saem com dificuldade)
... o frio
SANDRO
Não adianta bater, eu não deixo você entrar.
MANUELITO
... favor, sou o Manuelito
SANDRO
Putz, não posso perder a piada.
Sandro puxa uma alavanca e começa a cantar.
SANDRO
Manuelito lá
la la la la la lá
la la la la la la la la la lá
la la la la la lá la la la la la lá
la la la la la la la la la lá
Manuelito cai dentro da sua sala, por meio de um duto. Está assustado.
SANDRO
Tire essa roupa e tome um banho, tenho uma ducha Corona. Um banho de alegria num mundo de água quente.
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CENA 3 – ILHA - CÁPSULA DO TEMPO – INTERIOR – NOITE
Manuelito está sentado no sofá, vestido com roupas quentes, antigas, e toma café. Ele espirra.
SANDRO
Deus te crie. Melhor tomar um remédio pra não ficar gripado.
Sandro levanta-se, vai até a cozinha e retorna com um comprimido, que entrega para Manuelito.
SANDRO
Se a gripe atacar, Apracur pra curar. Desculpe, amigo, mas não estou autorizado a deixar qualquer pessoa entrar aqui. Isso aqui é um jogo e as regras são: ninguém entra e ninguém sai.
Manuelito olha preocupado para o comprimido.
MANUELITO
Como o Big Brother?
SANDRO
Do livro do Orwell?
MANUELITO
Não, do programa, naturalmente. Isto está no prazo de validade?
SANDRO
Programa Big Brother, não conheço. Deve ser recente. Onde é que passa? Faz sucesso?
MANUELITO
(tomando o comprimido, desconfiado)
Depende o que tu consideras recente. Mas tens televisão, não conheces? Todos os países têm um.
SANDRO
Aqui não pega televisão nenhuma, nem sei direito onde estamos. Mas tenho um videocassete e todos os programas da história da televisão brasileira pra assistir.
MANUELITO
Mas que lugar vem a ser este, ó pá?
SANDRO
É uma cápsula do tempo.
MANUELITO
Tu viajas no tempo?
SANDRO
(OFF) Português burro.
Não. Cápsula do tempo é algo, pode ser uma caixa, um contêiner ou essa estrutura aqui, onde as pessoas colocam vários objetos, vídeos, discos, fotos, todo tipo de coisa e depois lacram, pra ficar fechada por muitos e muitos anos, e abrir depois, pra preservar a memória de uma época.
MANUELITO
Percebo. Mas estás há muito tempo aqui?
SANDRO
Desde 1994. Cheguei aqui um pouco depois do velhinho. Já conheceu ele? Eu o vi pelo olho mágico. Nossa, foi um choque quando o vi aqui, vivinho da silva, mas depois me acostumei.
Manuelito concorda com a cabeça e caminha em volta, olhando os objetos e espirrando de vez em quando.
MANUELITO
Então nunca saíste daqui? Como fazes pra sobreviver? E por que vieste pra cá?
SANDRO
Não, tenho tudo o que preciso aqui, refrigerantes, chips, Danoninho, Dan-up, Cornetto, Cremutcho, chocolates, tenho Lollo, Kri, tenho joguinhos que eu não tenho com quem jogar, muitos programas de televisão. Tenho muita comida enlatada também. Outras coisas o pessoal me mandava pelo mesmo duto por onde você entrou. Mas faz muitos anos que pararam, acho que mudaram as regras, eles me avisaram que podia mudar a qualquer momento. Mas sempre tem um povo que passa aqui por perto e conversa comigo pela porta. O presidente Clinton ficou meu amigo e me traz o que eu preciso.
MANUELITO
Que pessoal? P-p-presidente Clinton?
SANDRO
Os caras da TV que criaram a cápsula e jogaram aqui. Aliás, eu nem sei que lugar é esse, já vim dentro da cápsula. Só estou aqui pra cuidar até virem resgatá-la. Mas já faz um tempo que tô achando que eles esqueceram. É chato assistir sempre aos mesmos programas.
Manuelito olha com cara de desconfiado.
SANDRO
Presidente Clinton é um cara que anda por aí com máscara de presidentes dos Estados Unidos. Conheci ele quando era o Clinton. Depois foi Al Gore e agora é um negão.
MANUELITO
(desconfiadíssimo)
Afro-americano. Hum... caríssimo, é muito a contragosto que te digo que preciso ir-me. Tenho que reencontrar o Doutor U, ele estava me levando para ver a Grande Feiticeira, que talvez me ajude a sair dessa ilha.
SANDRO
Já ouvi falar dela. Como eu disse, converso às vezes com o pessoal do lado de fora, mas nunca deixo ninguém entrar. E eles também estão na ilha há muito tempo, não assistem televisão, vou conversar o quê com eles? Por isso eu te peço (em tom de ordem), fique.
Sandro posiciona uma câmera que está no canto da sala, enquanto Manuelito se prepara para fugir.
SANDRO
Manuelito, olha aqui pra lente da verdade e me diz: O Brasil já é tetra? O Ayrton Senna ainda tá correndo? Já cortaram três zeros do Cruzeiro Real? Que novela a Manchete tá passando?
Manuelito olha sem querer para a lente e fica imobilizado.
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CENA 4 – SÃO PAULO – ESCRITÓRIO DA TV MANCHETE – INTERIOR - DIA
Flashback. Sandro está sentado numa poltrona confortável. Do outro lado da mesa, um EXECUTIVO.
EXECUTIVO
Bem, senhor Sandro Patrício, se o senhor não tem mais nenhuma dúvida, acho que já podemos assinar o contrato.
O executivo passa uma pasta com vários documentos e uma caneta para Sandro.
SANDRO
(assinando)
Ainda não acredito que passei nessa seleção.
EXECUTIVO
Foi uma seleção muito rigorosa, mas o senhor era de longe o candidato mais apto. Ninguém acertou tantas perguntas sobre a história da televisão brasileira.
SANDRO
É uma pena que não vá ao ar. Vocês podiam fazer um programa assim, né? Mas esperem passar esses anos que tenho que ficar na cápsula, eu quero participar.
EXECUTIVO
Tenho certeza que o senhor ganhará muitos prêmios, mas nada que se compare ao cachê que estamos pagando para permanecer confinado. É um grande projeto da emissora.
Toca o telefone. O executivo atende. Numa televisão próxima, Sandro se distrai com o comercial da Honda.
GORDINHO DA HONDA
Eu acordei, tirei meu pijama,
fui pra minha cama e depois dormi
Aí eu fui tomar café e deitei na cama
Peguei o meu pijama
Eu já fui logo pra cama yeah yeah...
EXECUTIVO
Agora se o senhor me der licença, tenho uma reunião importante com o Doutor Bloch. Algumas emissoras ainda não liberaram cópias de todos os seus programas, mas logo resolveremos.
SANDRO
Então, até dia vinte de fevereiro.
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CENA 5 – ILHA - CÁPSULA DO TEMPO – INTERIOR – DIA
Manuelito acorda. Na televisão está passando o Xou da Xuxa com a música “Quem quer pão?”. Sandro está de pijama no sofá, segurando o boneco do Fofão e chorando muito.
SANDRO
Eu não acredito que a TV Manchete faliu e eles me esqueceram aqui. Mas quem ficou responsável por tudo?
MANUELITO
Ainda brigam na justiça até hoje. O SBT comprou as fitas beta de Pantanal e está reprisando, sem autorização do Benedito. Mas tu ainda estás chorando, anima-te homem!
SANDRO
Você está certo.
Sandro levanta ainda chorando, vai até um armário, pega um frasco cheio e bebe todo o seu conteúdo. No mesmo instante em que apoia o frasco na mesa, seu semblante está mudado, ele está sorridente e muito feliz.
SANDRO
(animado)
Manuelito, vamos tomar café e sair daqui. Vamos encontrar a Grande Feiticeira e sair dessa ilha. Vou voltar ao Brasil e reerguer a TV Manchete. Tenho ideias que vão revolucionar a audiência. Minha vida tem sido uma farsa esses anos todos, mas agora tudo vai mudar. Está na hora de eu entrar na linha.
Sandro continua falando sem parar enquanto joga várias coisas numa mochila e tira a câmera do apoio. Manuelito aproxima-se da mesa com o frasco. No rótulo lê-se XAROPE DA FELICIDADE.
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CENA 6 – SÃO PAULO – ESTÚDIO DA TV BANDEIRANTES – INTERIOR – DIA
Flashback. Imagens de arquivo. Edson Cury, o BOLINHA, grava seu programa. WANDO canta Fogo e Paixão e as Boletes dançam ao fundo. Wando aproxima-se da bolete ZULU e faz gracinhas e caras de tarado para fazê-la rir. Ela continua dançando, séria. Passam caracteres na parte inferior do vídeo, informando as cidades e datas dos próximos shows da Caravana do Clube do Bolinha. A música encerra. O auditório aplaude.
BOLINHA
Wando, é um prazer tê-lo aqui novamente, você que vai nos acompanhar mais uma vez pelo Brasil com a nossa caravana.
WANDO
O prazer é meu de estar aqui diante desse auditório maravilhoso.
BOLINHA
Obrigado, querido, volte sempre.
(para a câmera)
Wando, Sidney Magal, Sula Miranda e vários outros artistas, além de mim e das Boletes, estaremos mais uma vez levando a melhor música do Brasil pra você. E agora vamos para o intervalo comercial, e voltamos já.
CORO
Bolinha, Bolinha, está na hora de você entrar na linha,
Bolinha, Bolinha, está na hora de você entrar na linha
Cantando bem você ganha os parabéns,
cantando mal vá cantar no seu quintal...
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CENA 7 – ILHA - CÁPSULA DO TEMPO – INTERIOR – DIA
Sandro posiciona Manuelito em uma cabine no canto da sala.
SANDRO
A produção criou um mecanismo complexo pra que eu só pudesse sair daqui em caso de emergência, mas depois de tanto tempo eu já decifrei. E um outro sistema pra expulsar eventuais intrusos. Primeiro você sai e depois eu. Você não esqueceu de nada, né? Porque eu não poderei retornar, a entrada só é acionada por dentro.
Manuelito nega com a cabeça. Sandro aproxima-se de um “Pula Pirata” em cima da mesa. Várias espadas estão espetadas, faltando apenas uma. Sandro enfia a espada no brinquedo. O pirata salta do barril e, ao mesmo tempo, Manuelito é arremessado pra fora da cápsula do tempo. Sandro sorri. Em seguida, coloca uma fita de vídeo com a etiqueta “Qual é a música? – usar somente em caso de extrema necessidade – as conseqüências podem ser nocivas à sua mente”. No vídeo, Silvio Santos inicia a prova com o Trio Los Angeles.
SILVIO SANTOS
E agora a prova do Segredo Musical. Começamos com o Trio Los Angeles que está...
AUDITÓRIO
... perdendo!
SILVIO SANTOS
(puxando a ficha com a pista)
Sinônimo de iniciar. A quarta letra do alfabeto. O contrário de velho. Formam o título desta música.
Trio Los Angeles confabula.
TRIO LOS ANGELES
Sete notas, Silvio.
SILVIO SANTOS
Maestro Zezinho, sete notas para o Trio Los Angeles.
A mão do Maestro Zezinho aparece ao piano tocando as sete notas. A imagem para. Sandro olha para a TV sorrindo, mas sem saber exatamente o que fazer. Depois de alguns segundos, Silvio Santos, em uma imagem visivelmente montada de outra edição do programa, repete.
SILVIO SANTOS
Segunda chance para o Trio Los Angeles.
A imagem da mão ao piano repete as notas e congela novamente. Sandro olha para a cabine por onde saiu Manuelito e corre pra lá. Coloca um fone de ouvido.
SILVIO SANTOS
Terceira e última chance para o Trio Los Angeles. Qual é a música?
A mão repete as notas.
SANDRO
(gritando)
Começar de novo!
SILVIO (OFF)
Pablo, qual é a música, Pablo?
Sandro olha pra cima e vê uma luz, que preenche a cena. Inicia a música “Começar de novo” de Ivan Lins.
SANDRO (OFF)
Nãããoo! Ivan Lins, nãããoo!
Começar de novo e contar comigo
vai valer a pena ter amanhecido

quarta-feira, 11 de março de 2009

Extraviados - Diretas já!

CENA 1 – SÃO PAULO – VALE DO ANHANGABAÚ – EXTERIOR – NOITE
Caracteres: 16 DE ABRIL DE 1984
Flashback. Uma grande multidão, muitos segurando bandeiras do Brasil e cartazes pedindo pelas “Diretas já!”, e vestindo camisetas amarelas. Políticos discursam no palanque e são muito aplaudidos. O PAI DE MANUELITO abre caminho pela multidão, segurando MANUELITO CRIANÇA firme pela mão. O menino parece assustado.
OSMAR SANTOS
(em alto-falante)
O Anhangabaú já tem 1,7 milhão de pessoas!
O PAI DE MANUELITO pára e coloca o filho nos ombros.
PAI DE MANUELITO
Consegues espiar?
MANUELITO CRIANÇA
Estou a ver, papai.
POVO
Um, dois, três, quatro, cinco mil! Queremos eleger o Presidente do Brasil!
No palanque, DOUTOR U toma o microfone.
DOUTOR U
Cidadãos do meu país, daqui a alguns dias será votada a emenda Dante de Oliveira, a emenda das diretas...
PAI DE MANUELITO
Quem está a falar? Cá não se pode ver nada.
MANUELITO CRIANÇA
Não sei, papai, é um velhinho.
Close no Doutor U e corta para close no Manuelito Criança.
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CENA 2 – ILHA – ACAMPAMENTO – EXTERIOR – DIA
Doutor U está numa elevação, discursando, no meio de uma dúzia de pessoas.
DOUTOR U
Basta, meus amigos! Chegou a hora de acabarmos com a tirania que viceja desde tempos imemoriais nessa ilha. O povo desta ilha está cansado de desmandos, opressão, truculência, desrespeito. O povo desta ilha quer o autogoverno, quer decidir por si mesmo os rumos do seu destino. Chega desta patifaria! Chega desta bruxaria! Chega de engodos! Chega...
Doutor interrompe seu discurso com a chegada de BODHI e MANUELITO. Close em Manuelito.
DOUTOR U
Amigo estadunidense, seja benvindo. Posso acreditar que você desistiu de viver isolado e resolveu aderir à nossa luta.
BODHI
Não, Doutor U, minha vida é o surfe, não me interesso por política.
DOUTOR U
Ah, meu amigo, quem não se interessa pela política, não se interessa pela vida. Mas quem é esse que te acompanha?
MANUELITO
(incrédulo e gaguejando)
Meu nome é Manuelito, mas o senhor não é aquele político famoso que...
DOUTOR U
Você parece surpreso. Meu desaparecimento deve ter causado grande comoção lá fora. No início eu tentei sair daqui de todas as formas, ainda estava apegado à minha vida anterior, mas logo descobri, entre esse povo tão oprimido, que eu tinha uma nova missão.
MANUELITO
Mas quem os está a oprimir?
DOUTOR U
Aqueles que sempre o fizeram, os donos do poder nesta terra, os Mesmos de sempre.
MANUELITO
E não existem meios de sair deste lugar?
DOUTOR U
Eu não disse isso. Apenas parei de procurar. Mas vejo que o seu grande desejo é sair daqui. Não o censuro. Não conheço ninguém que já tenha saído, mas a Grande Feiticeira conhece todos os segredos desta ilha.
MANUELITO
O senhor pode me levar até ela? Ela me ajudará?
DOUTOR U
Levá-lo, sim. Quanto a ela ajudá-lo... Meu amigo, ela é a líder dos Mesmos, é justamente contra ela que estamos lutando. Vai ser difícil dobrá-la. Uma luta às vezes dura toda uma vida.
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CENA 3 - BRASÍLIA – CONGRESSO NACIONAL – INTERIOR - NOITE
Caracteres: 5 DE OUTUBRO DE 1988
Flashback. O plenário da Câmara dos Deputados está lotado. Muitos flashes das máquinas fotográficas da imprensa. DOUTOR U, ao centro da mesa, com a Constituição Federal nas mãos, fica de pé e inicia seu discurso ao microfone.
DOUTOR U
Chegamos! Esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora. Bem-aventurados os que chegam. Não nos desencaminhamos na longa marcha, não nos desmoralizamos capitulando ante pressões aliciadoras e comprometedoras, não desertamos, não caímos no caminho.
Entre os presentes, ANTONIETA Marquesine e H. BRANDÃO, duas senhoras impecavelmente vestidas, com crachás da imprensa, tentam encontrar o melhor lugar para assistir ao discurso. Conversam com dificuldade.
H. BRANDÃO
Amiga, tenho certeza de que esse é um momento histórico. É algo que vou contar pros meus netos.
ANTONIETA
Sim, tudo começa hoje, você nem faz idéia. Mas querida, você não tem netos, você nunca quis ter filhos, só pra parecer moderninha.
H. BRANDÃO
Mas tenho os meus meninos da creche, você sabe que sou como uma avó pra eles. Pelo menos não tenho o útero seco. E não me xingue, que fui eu que consegui essas credenciais com meu namorado daquele jornal.
ANTONIETA
Shhhh... estamos perdendo o discurso.
DOUTOR U
...que este Plenário não abrigue outra Assembléia Nacional Constituinte. Porque, antes da Constituinte, a ditadura já teria trancado as portas desta Casa. Político, sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades. Uma delas, benfazeja, me colocou no topo desta montanha de sonho e de glória. Tive mais do que pedi, cheguei mais longe do que mereço. Foi a sociedade, mobilizada nos colossais comícios das Diretas-Já, que, pela transição e pela mudança, derrotou o Estado usurpador. Termino com as palavras com que comecei esta fala: a Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança. Que a promulgação seja nosso grito: Mudar para vencer! Muda, Brasil!
Aplausos e muitos flashes de máquinas fotográficas.
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CENA 4 – ILHA – EXTERIOR – ANOITECENDO
O grupo do Doutor U caminha pela mata.
MANUELITO
Doutor, queira perdoar-me a indiscrição, mas o senhor está muito bem de saúde pra quem já passou dos noventa anos.
DOUTOR U
(sorrindo)
São os ares benfazejos e as boas águas dessa ilha. Você ainda presenciará muitos milagres aqui, filho.
Manuelito ouve um leve ruído, parecendo uma música.
MANUELITO
Vós estais a ouvir isso?
O ruído aumenta e todos começam a ouvir, ficando visivelmente transtornados.
BODHI
Ah não, é por isso que não venho pra esse lado da ilha.
O ruído aumenta mais. Agora pode-se discernir claramente a abertura de “O Guarani”, de Carlos Gomes.
DOUTOR U
É a Voz! Corram todos, corram o mais longe que puderem!
Todos correm e se dispersam. A voz parece aumentar cada vez mais. Manuelito aumenta as passadas e a voz diminui, parecendo distante. Ela para de correr e percebe que está perdido.
MANUELITO (OFF)
Está muito escuro aqui. Naturalmente, se já são dezenove horas. Mas como sei que são dezenove horas?
Manuelito olha para o lado e vê um hipopótamo encarando-o. Troveja e Manuelito se distrai. O hipopótamo não está mais lá. Começa a chover.
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CENA 5 – ILHA – EXTERIOR – NOITE
O restante do grupo consegue se reunir. Começa a chover muito forte.
BODHI
Falta o portuga. Como vamos achá-lo no meio dessa tempestade?
Doutor U olha para cima e sente a chuva em seu rosto.
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CENA 6 - ANGRA DOS REIS – CASA DE PRAIA DE LUÍS - INTERIOR – DIA
Caracteres: 12 DE OUTUBRO DE 1992
Flashback. Doutor U conversa ao telefone.
DOUTOR U
Exato, Presidente, o partido deve parar de pressionar por cargos no ministério. (pausa) Sim, eu me esforçarei pra isso, reafirmo o meu compromisso com a manutenção da governabilidade. (pausa) Então, até breve, Presidente.
(desligando e virando-se para RENATO)
Então, meu caro Renato, temos que discutir aquele ponto sobre a campanha. Eu não acho que o parlamentarismo...
No sofá, à parte, SENHORA U e SENHORA S. Doutor U, Renato, DOUTOR S e LUÍS conversam ao fundo.
SENHORA S
Mas o Dr. U não pára, sempre com o mesmo vigor.
SENHORA U
Ele é incansável mesmo, sempre em busca de novos desafios.
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CENA 7 - ANGRA DOS REIS – CASA DE PRAIA DE LUÍS – EXTERIOR – DIA
Doutor U, Doutor S e suas esposas se despedem de Luís e Renato. Ao fundo, um helicóptero aguarda ligado.
DOUTOR U
Obrigado pelo final de semana, meu amigo.
LUÍS
Mas você quase não descansou, trabalhou o tempo todo.
DOUTOR U
É preciso, meu amigo, é preciso. Esse país ainda tem muito o que melhorar, e é preciso uma luta constante.
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CENA 8 - ALTO MAR – HELICÓPTERO – INTERIOR – DIA
Helicóptero sobrevoa o mar no meio de fortes chuvas. Turbulência. Senhora U e Senhora S estão apreensivas e rezam. Doutor U e Doutor S apertam as mãos delas. Close no Doutor U, olhando pela janela, alternando com flashes dos seus discursos nas cenas 1 e 3.
DOUTOR U (OFF)
(sobre flashes que se alternam)
Eu não quero morrer de raiva, nem de mágoa, nem de doença. Eu quero morrer na luta. Político, sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades. Uma delas, benfazeja, me colocou no topo desta montanha de sonho e de glória. Tive mais do que pedi, cheguei mais longe do que mereço.
Câmera desvia do Doutor U para a parte externa, onde a chuva não permite distinguir nada.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Extraviados

CENA 1 - ILHA – EXTERIOR – DIA
MANUELITO abre os olhos. Ele é loiro, cabelos curtos e usa bigodes igualmente loiros. Fala português corretíssimo com uma variante do sotaque de Portugal. Fala outros idiomas, sempre com o sotaque muito carregado. A luz forte o confunde. Ele vê o presidente Obama à sua frente.
BODHI
Hey man, get out of here.
MANUELITO
Quem és tu, gajo?
Manuelito se acostuma à luz e percebe que, na verdade, o homem está usando uma máscara do Obama. Bodhi tira a máscara. Tem um jeitão de surfista e é muito parecido com o ator Patrick Swayze dezoito anos atrás.
BODHI
Cara, vamo logo, se você ficar aqui, vai morrer.
Eles correm alucinados pela mata. Sentem uma presença que os segue. Não sabem o que é, mas parece muito próxima, grudada e respirando no cangote deles. Close em Manuelito, assustado.
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CENA 2 - REINO DAS PALAVRAS – CASA DO MANUELITO - INTERIOR – NOITE
Caracteres: DEZEMBRO DE 2008.
Flashback. Manuelito conversa ao telefone. Na tevê, o noticiário nacional.
MANUELITO
É como estou a te dizer, Pasqualouro, estamos todos muito apreensivos com esta reforma ortográfica, tem gente que já está a fugir do país.
ÂNCORA DO TELEJORNAL
O clima é de tensão em todo o Reino das Palavras, com a entrada em vigor do acordo de reforma ortográfica, entre todos os países de língua portuguesa. O país é mundialmente conhecido pelo apego rigoroso à norma culta e boa parte da opinião pública condena veementemente o acordo, ratificado pelo parlamento controlado pelo novo primeiro-ministro. O rei foi acusado de conivência.
MANUELITO
Estou a tentar comprar passagem para o Brasil, mas os vôos já estavam lotados em razão do Natal. Parece-me que está tudo atrasado, um caos aéreo como aquele que vós tivestes no ano passado.
ÃNCORA DO TELEJORNAL
Nas últimas semanas, a proximidade da mudança lançou o país num clima de crescente insegurança. Por enquanto, houve apenas focos isolados de manifestações e uma tentativa de greve dos empregados de gráficas e editoras, logo debelados pelas autoridades. Mas a população teme uma forte onda de violência no final do ano. Todos crêem que uma guerra civil está por vir.
Manuelito, ainda ao telefone, olha assustado para a tevê.
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CENA 3 – ILHA – EXTERIOR – DIA
Manuelito e Bodhi param pra descansar. A presença grudenta não os segue mais.
BODHI
Quem é você, afinal, nunca te vi aqui antes.
MANUELITO
Chamo-me Manuel, sou cidadão do Reino das Palavras. Estou um pouco confuso, que lugar é este.
BODHI
Nem eu sei direito, faz quase 20 anos que estou aqui, peguei a grande onda na Austrália, foi a grande busca da minha vida. Achei que ia morrer, mas vim parar nessa ilha maluca.
MANUELITO
Então cá é uma ilha? E tem aeroporto? Algum hotel. Estou a precisar de um banho.
BODHI
Cara, você fala engraçado. Não tem nada nessa ilha não, só uma galera estranha que vive andando de um lado pro outro atrás de um velhinho gente fina que parece um tipo de chefe deles, mas eles não me incomodam. Tem esse treco que não larga a gente, parece grudado, eca, mas é só tomar cuidado onde a gente passa. Geralmente fico do outro lado da ilha pegando umas ondas, lá não tem perigo.
MANUELITO
E sabes como eu faço para sair desta ilha? Algum barco eles hão de ter.
BODHI
Eu não sei, não, eu curto esse lugar. Praia, sol, ondas, não preciso trabalhar. Nunca tentei sair daqui. Mas o velhinho deve saber.
MANUELITO
Tu podes me levar até ele?
Antes que Bodhi responda, a presença grudenta surge novamente e eles saem correndo, um pra cada lado. Logo a ameaça para de respirar no cangote de Manuelito, e ele vai procurar Bodhi.
Manuelito vê um brilho no chão e pega o objeto na mão. É uma moeda, aparentemente de ouro. Quando olha à sua frente, vê um menino louro, aparentando uns 6 ou 7 anos, usando roupas aristocráticas, botas, uma capa e uma espada.
Bodhi o encontra. Manuelito se distrai por um instante e, quando olha novamente, o garoto não está mais lá. Manuelito guarda a moeda no bolso, sem que Bodhi perceba.
MANUELITO (OFF)
Raios! Será que estou a ter alucinações? Deve ser efeito colateral daquele pó dos infernos. Por que não esperei mais alguns dias pra tomar um voo pro Brasil?
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CENA 4 - REINO DAS PALAVRAS – EXTERIOR – DIA
Caracteres: JANEIRO DE 2009.
Flashback. As ruas estão um caos. Carros abandonados, barricadas nas autoestradas, lixo espalhado, pessoas feridas, gente correndo pra todos os lados, tanques do exército. Manuelito caminha desorientado e encontra EMÍLIA. Ela carrega o VISCONDE de Sabugosa a tiracolo e segura sua canastra, cheia de tralhas.
MANUELITO
Marquesa de Rabicó, que alvissareiro encontro em um dia de tantos infortúnios. Temia pela sua segurança.
EMÍLIA
Pois então seu Manuelito, estou picando a minha mula. Vou voltar pro sítio de Dona Benta que é mais seguro. Só fui pegar este sabugo de milho que cismou em fazer um discurso na praça pra acalmar os ânimos. Quase foi pisoteado.
MANUELITO
Folgo em saber que estais bem, a situação está deveras complicada. A única vez que vi o país assim foi naquela epidemia de cegueira.
EMÍLIA
Bom, seu Manuelito, nós temos que ir mesmo. Só vou procurar um lugar mais tranquilo pra tomarmos a nossa dose de pó-de-pirlimpimpim e voltar pra lá. (pausa) Nossa, tive um mal estar agora. Pé-de-moleque ainda tem hífen. E pó-de-pirlimpimpim? Acho que sim. Espero que isso não interfira no efeito dele. Senhor Manuelito, acho melhor o senhor se mandar também, a coisa tá ficando feia. Se precisar, sobrou um pouquinho de pó na cômoda lá no quarto do meu hotel, pode pegar. Mas cuidado pra não calcular errado a dose, sabe lá onde o senhor vai parar.
Manuelito e Emília se despedem rapidamente. Ele corre até o hotel dela. Não há ninguém na recepção e ele sobe direto. O quarto é o 101. Manuelito logo encontra o pó-de-pirlimpimpim. Antes que possa calcular com calma a dose, uma bomba explode na rua em frente. Ele cheira o pó rapidamente.
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CENA 5 - ILHA – EXTERIOR – DIA
MANUELITO
Então és estadunidense? O que fazias em teu país, ó pá?
BODHI
(enrolando)
Digamos que eu trabalhava com bancos.
Antes que Manuelito continue a conversa, ele vê um pedaço de papel pregado numa árvore, com um desenho.
MANUELITO
Mas que diabos? Quem é que tem tempo pra ficar desenhando neste lugar. Será que é aquele miúdo que eu vi mais cedo? E pra que desenhar um chapéu?
BODHI
Dizem que é o francês, um sujeito esquisito que mora na ilha há muitas décadas. É da paz, mas não fala com ninguém. Só fica desenhando, sempre a mesma coisa, sempre esse chapéu, e espalha o desenho pela ilha. O que é miúdo?
Ouvem-se algumas vozes.
BODHI
Estamos chegando. É o acampamento do velhinho.
MANUELITO
Será que ele pode mesmo me ajudar a sair daqui?
BODHI
Cara, bote fé no velhinho, o velhinho é demais!
Manuelito e Bodhi fazem uma curva e encontram um pequeno grupo. Ao centro, um senhor de aspecto frágil, numa pequena elevação, faz um discurso inflamado. Suas feições ainda não são nítidas. Manuelito se aproxima e arregala os olhos. Close no DOUTOR U.
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