quarta-feira, 23 de julho de 2008

Bravíssimo - Dercy Gonçalves, o retrato de um povo

(Gelson, Rubinho, Odir Sereno e Aldir)
Ah, obrigado, Dercy
Mercy, Dercy!
Abriu-se a cortina pro seu show
São cinco letras a sorrir
de Madalena pra Sapucaí
Um dia, lá no trem da esperança
vai o sonho de criança
descendo a serra, tão linda e feliz
A luz então brilhou, o palco se acendeu,
o show vai começar
Na Casa de Caboclo
a menina deslumbrou (ô ô, ô ô)
E no seu primeiro ato
O sucesso abriu os braços
pra você
Brilhante no Teatro de Revista
Em cena o talento de Dercy (oi, fala Dercy!)
Da comédia à piada,
com humor e gargalhada,
eu vou me acabar
Quá, quá, quá, quá, quá
No cassino e no cinema
No sangue o dom de criar (ô, e viajou…)
E viajou, lá foi Dolores
Que dor no coração
Mas quem pensou que a luz se apagou,
se enganou, ela voltou
Ela voltou, com mais garra e inspiração (vejam vocês!)
Cada vez mais sapeca, quem diria,
soltando a perereca da vizinha!
Vou entrar no circo
e com você sonhar
No fim da peça,
pra você gritar, um bravo
Bravo, bravíssimo
Mil aplausos pra você, Dercy (bis)
Ao retrato de um povo
a homenagem da Viradouro

Dercy retorna à sua pirâmide para um período de recolhimento, até a vinda do Olho de Thundera

domingo, 20 de julho de 2008

Queridos amigos

À amiga Dercy. Eterna.
.

Amigo é amigo, filho da puta é filho da puta.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O Dicionário das Mães

Eu e outros membros do clã dos Francelinos temos um projeto do tempo do Ari Pandorga, que eu não sei se tem parentesco com a saudosa Pandorga, figura folclórica, ébria contumaz, que caiu na água e morreu afogada numa noite ao se abaixar pra urinar na beira do cais. O cais fica na Capital Histórica de Santa Catarina, assim como a sede do clã. O tal projeto é a publicação do Dicionário das Mães (e avós e tias e vizinhas e velhas da noveninha da dona Silvalina ou da missa de domingo de manhã na Roseta). Sempre adiei este projeto porque as palavras e expressões idiomáticas são incontáveis e não sabia por onde começar. Até que resolvi anotá-las à medida que iam surgindo nas conversas com meus conterrâneos. Seguem alguns verbetes selecionados. Não sou filólogo, portanto desconheço as origens ocultas desses vocábulos, que devem remontar ao tempo da construção da casa de Anita. Onde, aliás, ela nunca morou, apenas se vestiu pra casar. Aprendi com Mamãe Oliveira.
A gente não deve correr do bicho sem ver o pêlo - quem não arrisca, não petisca
Andar um eito - andar muito
Cabeça de osso pra sopa - pessoa avoada, que não presta atenção nas coisas.
Caralho da Emília! - imprecação usada em qualquer situação
Comeu cobra e não tomou água - expeliu gases intestinais com odor insuportável
Difícil pro ceguinho - constatação óbvia, semelhante à antiga “descobriu a pólvora” (expressão irônica)
Eu conheço o meu eleitorado - eu conheço os meus, eu sei como eles vão se comportar (a família, por exemplo)
Eu negaceei - eu fiquei de olho, à espreita
Isso dá em penca ou dá em cacho - palavra esquisita que a pessoa não tem a menor idéia do que seja
Mas será o cabrito? - Mas será possível? (quando a pessoa está incomodada)
Ô, seu diano - ô, seu diabo (sem invocar o tinhoso)
Ou calça de veludo ou cu de fora - ou uma coisa ou outra
Pára com essa barda - pára com essa mania
Tá de cegonha - está grávida
Tava falando cá com meus botões - estava falando sozinho
Tá todo apaixonado - está todo triste e choroso (porque se machucou, por exemplo)
Tu não conhece a Adelaide - tu não sabes com quem estás te metendo
Vai cachimbar formiga - não me estressa
Vai dar o porco - algo nada bom acontecerá
Vai dormir, vinagre - vai dormir e pára de me incomodar
Vocês não têm bandeira - vocês não tem critério, uma hora fazem/dizem uma coisa, outra hora fazem/dizem outra

Vem lavar a xexeca, Dayana!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Lindo balão azul

(Guilherme Arantes)
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou um cientista,
o meu papo é futurista,
é lunático
Eu vivo sempre no mundo da lua
Tenho alma de artista
sou um gênio sonhador
e romântico
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou aventureiro
desde o meu primeiro passo
pro infinito
Eu vivo sempre no mundo da lua
Porque sou inteligente
e se você quer vir com a gente,
venha que será um barato
Pegar carona nessa cauda de cometa,
ver a Via Láctea, estrada tão bonita
Brincar de esconde-esconde numa nebulosa
Voltar pra casa, nosso lindo balão azul

O mundo fica bem mais divertido

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A Grande (Vara da) Família

No “Dicionário dos Lugares Imaginários”, o escritor canadense-argentino Alberto Manguel descreve em forma de verbetes enorme gama de localidades produzidas pela inventividade humana em séculos de literatura, da Atlântida a Lilliput, da Terra do Nunca ao País de Oz, passando pela Terra Média, que fica no meio, pois se é média é a média entre uma coisa e outra, como faria questão de frisar o Papai Smurf, genitor da Pequenininha. A edição brasileira traz o Sítio do Pica-pau Amarelo e a Pasárgada, onde sou amigo do rei. A lista não é exaustiva, pois muitos lugares até recentemente não haviam constado em qualquer obra literária, como a Ilha das Maravilhas (não confundir com o país de mesmo nome), a República das Pessoas que Escrevem Assim e a lendária Vara da Família de São José.
O Padre Voador não teve oportunidade de conhecer este lugar e, na verdade, ainda que seja um homem de muita fé, provavelmente não acreditaria na sua existência, pois os personagens que ali vivem e os eventos que ali ocorrem vão além do surreal e não podem ser descritos com palavras conhecidas. Dariam um ótimo tema pra um filme do Buñuel, se ele já não tivesse se encontrado com o mal irremediável há décadas. Quem sabe eu não consiga contactá-lo e pedir algumas dicas, coisinhas?
Como Mãe Lilizinha do Canto B é muito ocupada e só atende com hora marcada, apelei pra Dra. Prazeres, a Batista. Seus poderes mediúnicos são vastos, pena que está um pouco caduca e às vezes confunde as coisas. E eu também não facilito, pedindo pra falar com um espírito espanhol sem a presença da Boa pra traduzir.
Chamou um espírito e veio outro, mais chegado. Isso é invocação.
- Olá, quem está aí?
- Bem, eu prefiro não me identificar, é que já faz muito tempo que eu estive na Terra.
- Mas o senhor não pode me dizer pelo menos a sua profissão, a sua inicial?
- Bom, eu era um advogado de descendência árabe...
- Ah, aquele advogado cujo nome começava com Z? Como vai, Doutor Z?
- Bem, Louro, sabe, eu tenho acompanhado de perto a vida da Vara da Família de São José e sei porque eles têm passado por tudo que passam...
- Então conte, Doutor Z, tudo o que o Fórum de São José precisa é de uma boa fofoca.
E ele falou da transmigração da alma, da lei do carma e de porque todas aquelas pessoas foram reunidas pela mão do destino na Vara da Família: para expiar terríveis faltas cometidas em tempos imemoriais.
Em eras remotas, a humanidade resolveu construir uma torre tão alta que alcançasse os céus. Para tal empreitada, contrataram o melhor arquiteto da época, um jovem chamado Oscar Niemeyer, que projetou um estrutura incomparável utilizando a sua recém-inventada técnica das curvas – diferente das formas triangulares tradicionais que ele aplicara em seu complexo arquitetônico do Egito. A obra empregou um número incalculável de trabalhadores de várias procedências, alguns não muito zelosos de seu serviço. Uma mulher de vez em quando saía pra passear e avisava pra não esperarem sua volta. Uma família se desdobrava, trabalhando dia e noite pra alimentar toda aquela gente, com saborosas iguarias. Nessa família, havia uma menina de olhos verdes – mas ela preferia que fossem azuis, pois achava que olho verde é de balaio, todo mundo tem -, que adorava puxar papo com os trabalhadores. Travessa, um dia apertou todos os botões do elevador da torre, só pra sacanear os coitados, que levariam semanas pra subir e descer. A obra parou. Começou um furdunço e ninguém se entendeu mais. E a menina sapeca teve seu castigo séculos depois, indo trabalhar na Vara da Família sob a alcunha de Zóio de Balaio, doravante ZB.
Na época de Abraão, um jovem de aparência nórdica vivia na cosmopolita Gomorra, cidade cheia de gente pecadora, onde rolava muita putaria. Anunciava no jornal local seus serviços de massagem, atendendo hebréias, pagãs e casais, com local no centro. Passava os finais de semana na vizinha Sodoma, com muitas opções de lazer, inclusive bailões freqüentados por pessoas de todas as idades. Eram cidades muito violentas e ele tinha um sem-número de desafetos. Num dia de tempo fechado, percebeu que a primeira gota que caiu não era de água, e sim de fogo. Como pessoa boa que era, tomou uma atitude. Passou um trote para o corpo de bombeiros de Sodoma, o único da região, falando de uma criança que ia ser sacrificada pelo pai na distante Canaã. O velho tinha desistido mas esquecera o menino amarrado em cima de uma pedra e não havia ninguém pra socorrê-lo. Na ausência dos bombeiros, a chuva de fogo e enxofre logo arrasou as duas cidades, e fez-se o caos. Prevenido, o louro pegou suas coisas e se mandou a tempo. Apenas um casal com suas duas filhas foram mais rápidos do que ele, e picaram a mula – ou melhor, a jumenta de Balaão -, avisados pelo Senhor, pois eram os únicos justos entre toda aquela gente.
Em meio à confusão, o louro esbarrou com uma jovem virgem – a única de Sodoma e Gomorra, mas ainda assim pecadora -, que gritava só de sacanagem o nome dos seus vizinhos, por não a terem levado junto. Assim, ele ficou sabendo que o homem se chamava Ló, o qual fazia um saboroso pão, que na verdade era um bolo, o pão-de-ló. A virgem se esgoelava tanto que a mulher de Ló acabou virando-se para trás, contrariando a ordem do Senhor, e transformou-se numa estátua de sal. Sentindo-se vingados, estes dois personagens fizeram um pacto, tornando-se a partir daquele dia sócios em suas atividades obscuras. Renasceram como Marcola, dono de uma “boca” e Tirol, seu braço direito. Tempos depois, ela foi promovida a gerente da “boca” e rebatizada como Parma, e “passava” todos os inimigos de Marcola. Mas nem os lucrativos negócios evitaram que fossem trabalhar na Vara da Família. Há registros de, pelo menos, mais uma sobrevivente da tragédia bíblica.
Os descendentes de Abraão sofreram muito com a escravidão no Egito. O escriba-chefe, um homem de vasta cabeleira, cortava um dobrado pra fazer cumprir os desígnios de faraó e ouvir os muitos pedidos dos súditos. Uma egípcia estressada ia diariamente reclamar que não agüentava mais “essas guria hebréia”, que só ficavam cuidando da vida dela, e que se ele não tomasse uma providência, ela iria direto no faraó. O escriba ouvia, paciente, e se movimentava rápido entre um palácio e outro, andando de meia pelo deserto, sempre acompanhado de seu gato de estimação – animal sagrado naquele país – que o ajudava a supervisionar o trabalho dos escravos. Só parava pra descansar à sombra de um cactus e comer o seu sanduíche natural de papiro e flor de lótus. Um hebreu chato vinha toda hora solicitar audiência com o faraó - que apesar de ser carrancudo recebia todo mundo -, reclamando de tudo quanto era coisa: enchente, chuva de pedra, rãs, gafanhotos, ratos na comida e o escambau. Faraó mandava o escriba resolver e ele ia sempre deixando pra depois. Enquanto isso, o povo hebreu tinha que agüentar aquelas pragas. O escriba renasceu como o Calvo – o nome é auto-explicativo -, guia espiritual da Vara da Família.
No reinado de Salomão, o sábio rei às vezes precisava julgar casos muito difíceis. Certa feita, duas mulheres alegavam serem a mãe de um recém-nascido. O povo reunido fazia um alvoroço e o rei mal conseguia “conjuminar” as idéias. Uma mulher, cuja voz se destacava entre os demais, gritava em favor de uma delas, dizendo que a criança era a cara da vó. Indeciso, o rei chamou sua conselheira loura, que estava atarefada com a quantidade de alimentos que abarrotavam os celeiros reais. Depois de enviar um escravo para as minas do rei Salomão – embora achasse que ele iria atrás das filhas do monarca, que eram umas gatas -, a conselheira sugeriu que as mulheres entrassem num acordo, já que ainda não tinha sido inventado o exame de DNA: cortariam a criança ao meio e cada uma ficaria com metade. E assim foi feito. Diz a Bíblia que o Salomão resolveu a questão de outra maneira, bem mais salomônica, mas essa versão parece ter sido forjada. A conselheira reencarnou como a Escrivoa da Vara da Família, e continua zelando pelos alimentos.
Na Judéia, ao tempo do império romano, numa bela tarde uma judia loura caminhava lépida e fagueira pela rua do comércio de Belém. Entre uma prosa e outra, eis que avistou uma grande placa, escrita em bom aramaico: PERCEVEJOS – ATACADO E VAREJO. Sabedora de uns boatos que corriam sobre uma misteriosa estrela e um tal de messias que nascera numa estrebaria nas imediações, filho de gente da Galiléia – e todo mundo na época sabia que não pode vir boa coisa da Galiléia –, a judia loura, sempre muito zelosa da Torá, resolveu comprar várias e várias caixas de tachinhas. Quase desistiu, porque a atendente fingia que não tinha ninguém no balcão pra ser atendido. Mas finalmente veio algum estagiário atendê-la. Dirigiu-se à estrebaria, na calada da noite. Todos dormiam, inclusive o menino e as vaquinhas, apesar daqueles anjos que não paravam de cantar Gloria in excelsis Deo. Ela já os estava insuportando. As visitas estrangeiras ainda não haviam chegado. Sorrateira, encheu a manjedoura de tachinhas e saiu correndo, antes que a criança começasse a chorar. A judia perversa renasceu séculos depois, novamente loura mas com película, e uma poia, sem a esperteza de outrora, atendendo por muitas alcunhas, sendo a mais conhecida a de Sra. Weltzer.
Muitos anos depois, num domingo de muito calor, uma judia preta, imigrante de terras mais a oeste do Mar Vermelho, decidiu ir à praia. Como o Mar Morto era longe e ela gosta de coisas bem vivas, foi ao rio Jordão mesmo. E sabe como é judeu pobre, tem que levar o frango e a farofa. Mas os mercados estavam muito movimentados com a multidão que vinha atrás de um daqueles profetas malucos do deserto. E esse não era daquele tipo que multiplica pão e peixe, então todo mundo tinha que comprar mesmo. Ela acabou não levando o frango. Lá chegando, esticou uma toalha no chão, tirou a canga e ficou fazendo exposição da figura sob o sol palestino, se engraçando com um escravo etíope que não tinha nada de eunuco. Não fez top less porque o Levítico proibia. Havia uma fila enorme de pessoas esperando pra serem batizadas pelo tal profeta, e ela resolveu não entrar na água, que devia estar uma imundície com todo mundo fazendo as suas sujeiras. Uma mulher reclamava o tempo todo que estava estressada com a demora da fila. Lá pelas tantas, quando um jovem barbudo estava sendo batizado, uma singela pomba desceu dos céus, ficou voando sobre ele, enquanto uma voz em off, parecendo um trovão, vinda não se sabe de onde, falava algumas palavras às quais ela não prestou atenção. A essa altura, com o sol a pino, a fome bateu. Como a judia preta não era chegada a mel silvestre nem a gafanhotos, e a tal pomba tinha pousado a seu lado, não perdeu tempo: fez churrasquinho do Divino. Refeição que lhe custou a reencarnação como a Escura da Vara da Família.
Na capital da Judéia, poucos anos mais tarde, uma mulher iluminada e dotada de poderes mediúnicos cortava um dobrado pra fazer brotar algumas flores e plantas ornamentais nos jardins de seu palacete, no sopé do Monte das Oliveiras, onde nasceram todos os meus antepassados (mas isso não tem nada a ver). Mas também, como que umas plantinhas iam vingar naquela terra seca e infeliz? Só mesmo o cactus, símbolo de vigor que atravessaria os séculos. Como seus dotes botânicos eram muitos conhecidos em toda Jerusalém, foi a ela que o governador Pôncio Pilatos encomendou uma coroa de espinhos para uma execução concorridíssima no feriado da Páscoa. Ela reclamou que era brincadeira um pedido assim em cima da hora, ela cheia de pães ázimos pra cozinhar, cordeiro pra assar, a despensa sem nenhuma erva amarga, e ainda tinha que fazer antes do sábado, porque era proibido trabalhar. É brincadeira! Mas fez a coroa assim mesmo, com muito capricho, afinal foi o governador que mandou. Pediu pra sua assistente levar, mas pra (não) ajudar ela tinha se machucado com os espinhos e pegou um atestado. Mesmo sendo uma iluminada e tendo renascido como a Mãe Lilizinha, esta boa judia teve que cumprir seu carma e trabalhar na Vara da Família, onde fundou o congá conhecido como Canto B.
Enquanto isso, uma pequena multidão se aglomerava na frente do palácio de Pôncio. Uma jovem loura, magra que dava até nojo nas hebréias invejosas, e membro de uma seita pouco conhecida na época, a Seita dos Ceticozinhos - pequenos céticos, pessoas de pouca fé porque fé demais não cheira bem –, puxava o coro dos pobres, em resposta às indagações do governador: “Não há outro rei senão César! Crucifica-o!”. Uma judia preta ao seu lado emendou, pois era muito dadivosa e estava pegando um sujeito antes dele ser preso: “Solte Barrabás!”. Aquela que tinha pego atestado por causa do espinho, naturalmente tinha ido ver a arruaça, e gritava mais alto que todos: “Ele não! Solte Barnabé!” Alguém a corrigiu: “É Barrabás!” E ela: “É tudo a mesma coisa.” Quando o réu foi apresentado ao povo, com uma coroa de espinhos na cabeça, a judiazinha loura sem coração, louca pra ver o Gólgota pegar fogo, atiçava os outros: “Crucifica-o! Crucifica-o!” E assim aquele justo foi condenado à cruz. A multidão acompanhou a procissão, ouvindo a banda e o lamento da Verônica, rumo ao Hospital de Caridade (digo, ao Calvário). Não contente, aquele encosto seco ainda calçou o Filho do Homem por três vezes na subida do morro, fazendo-o ir ao chão. Hoje paga seus pecados pela segunda vez na Vara da Família, atendendo quando chamada de Sinhá Loura.
A Avó da Neta não tem carma. Ela é o carma de todos eles. E de qualquer forma, não pode expiar suas faltas nas sucessivas encarnações, pois só teve uma até agora, a única, haja vista tratar-se de um ser de idade incalculável, rivalizando com a própria Dercy Gonçalves. Sua história é muito longa e será contada oportunamente.
Tais foram as revelações do Doutor Z. E tem gente que diz que jogou pedra na cruz ou colou chiclete debaixo da mesa da santa ceia.

Rá!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Eu, Dercy, há dez mil anos atrás

TOMO II
Com Silvio Santos, o Sumo-Sacerdote do Baú, Dercy pariu as criaturas medonhas e abomináveis conhecidas como os Jurados, líderes do culto chamado “Show de Calouros”, dos quais os maiores expoentes eram Pedro de Lara e Araci de Almeida. Com Araci de Almeida, pariu a Marlene Mattos. E ainda com Silvio Santos, Dercy pariu uma voz desprovida de matéria muito apegada ao pai, que foi batizada de Lombardi.
Como Silvio passava por dificuldades financeiras trabalhando de camelô, Dercy inventou o carnê do baú para tirá-lo do aperto. Ele enriqueceu e lhe prometeu a casa própria, desde que ela ficasse em dia com as mensalidades, mas nunca cumpriu. Em segredo, Dercy adotou uma criança e transmitiu-lhe todos os seus conhecimentos. Anos mais tarde, essa menina seria o instrumento da vingança de Dercy contra Silvio, contando-lhe a piada do bambu, ensinada por Dercy. Mas Silvio Santos era mais esperto e preparou uma câmera escondida com Ruth Roncy, expondo as vergonhas de Dercy. Mas como ela era sem-vergonha e boca suja, não adiantou nada.
Desde então fizeram um pacto. Para cada palavrão dito por Dercy Gonçalves, Silvio Santos ganha um cruzeiro, ou a moeda em vigor na época, em barras de ouro que valem mais do que dinheiro, oieee...
Com Roberto Marinho, Dercy pariu Hebe Camargo, Lolita Rodrigues, Nair Belo, Renato Aragão, Cid Moreira e Léo Batista.
Hebe e Silvio Santos geraram o Chaves e o Gugu. Chaves e seus vizinhos morreram num acidente de avião e ficaram presos a este plano da existência, razão pela qual continuam se manifestando diariamente há décadas. Recentemente, inspiraram uma série de grande sucesso da televisão norte-americana. Gugu afeiçoou-se ao pintinho amarelinho e não gerou descendência.
Lolita Rodrigues inaugurou a TV Tupi e é a única pessoa viva a lembrar do hino da televisão brasileira, criada por Assis Chateaubriand por sugestão de Dercy, para que ela pudesse espalhar seus palavrões por todo o país.
Com Jamelão, o jovem, Dercy pariu Elza Soares, Mussum, Glória Maria e Zulu, a mulata que não ri. Ela chupou manga e deixou as sementes caírem na Estação Primeira, fundando a conhecida escola de samba. Tempos depois, rompeu com eles e foi desfilar com os peitos à mostra na Viradouro.
Cansada de viver em Madalena, Dercy saiu com a primeira caravana do Clube do Bolinha, levando consigo sua dileta filha Zulu, a mulata que não ri. Com Edson Cury, o Bolinha, Dercy pariu Golias, Fafy Siqueira, Zacarias e dona Wilma. Dona Wilma não pariu ninguém e, por isso, roubou o Pedrinho. Era final de ano e todos passaram o Réveillon no Ilha Porchat.
Nair Belo constituiu várias famílias e achava muita graça nisso. Com Golias, pariu a Família Trappo e o Carlos Alberto de Nóbrega. Com Rogério Cardoso, pariu a Grande Família. Para não ficar incomodando em casa, Dercy matriculou o genro, sob o pseudônimo de Rolando Lero, na Escolinha do Professor Raimundo, onde conheceu este último, com quem teve numerosa descendência. Como o salário dele era pequeno e não podiam sustentá-los, Dercy abandonou todos na roda dos excluídos, que ainda funcionava naquela época. Muitíssimo tempo depois, o Senhor chamou Nair Belo, que no início se fez de surda e não quis ouvi-lo, mas acabou cedendo porque a zorra seria total.
Cid Moreira e Léo Batista ficaram amigos de Sérgio Chapelin, que gostava muito de programas sobre animais, e adotaram a Zebrinha do Fantástico, que logo aprendeu a falar “Boa noite”.
Com Beto Carrero, Dercy pariu Dedé Santana. Ele se uniu a Didi, Mussum e Zacarias e criaram Os Trapalhões, que destruíram de vez o cinema nacional. Numa experiência genética fracassada e feita em segredo, pois era proibido o uso de células-tronco embrionárias, Os Trapalhões geraram o Sargento Pincel. Zacarias e Mussum morreram e, apesar de idas e vindas, Didi e Dedé continuaram unidos. Na vida é tão bom ter amigo.
Com Fidel Castro gerou o asqueroso e terrível Lula, uma anomalia sanguessuga que vive nas profundezas do mar, assemelha-se a um sapo barbudo e tem a língua presa. Este ser tem o poder maléfico de expressar-se por meio de metáforas sobre futebol e de nunca, em hipótese alguma, perder sua popularidade.
Todos esses eventos nada mais foram do que a preparação para sua maior obra: as novelas da TV Manchete, em que Dercy pretendia interpretar Dona Beija, Juma Marruá, Xica da Silva e cantar o Canto das Sereias, sendo porém recusada por questões estéticas. Por vingança, ela exigiu que Silvio Santos retirasse as fitas beta do fundo do Baú e as reprisasse incansavelmente, logo após o Chaves.
Dercy pariu mais de 500 mil crianças ao longo de seus incontáveis anos de vida, mas pelo menos umas 100 mil morreram ao nascer, por ver o rosto da mãe. Todos aqueles que enumeram os filhos de Dercy enlouquecem. Esse panteão de criaturas de pesadelo é conhecido pelo nome coletivo de FILHOS DA PUTA.
Por incrível que pareça, Dercy nunca havia se entregado aos prazeres sensuais do carnaval baiano. Após recuperar-se de um acidente automobilístico em que, obviamente, não sofreu um arranhão, Dercy passou um ano em Santo Amaro da Purificação, BA, comemorando o aniversário de sua amiga de infância, dona Canô Veloso. Lá também reencontrou aquele menino muito inteligente, Oscar Niemeyer, com quem ela se divertia em tenra idade, construindo cidades de concreto armado na praia.
Diz a lenda que, para saber a idade de Dercy, seria preciso contar o número de rugas em todo seu corpo, número este que aumenta de milênio em milênio. E quem conseguir fazê-lo, absorve seu dom da imortalidade. Porém, nenhum olho humano pode observar aquele corpo, e nenhum ser vivo do universo tem mente o suficiente pra gravar tamanha quantidade de rugas. Além disso, a cada segundo perdido por ter que reiniciar a contagem, zilhões de rugas novas aparecem. Os atuais métodos de análise de DNA e datação por carbono-14 são igualmente incapazes de chegar a um resultado preciso, pois mesmo com toda a evolução da cibernética, não há computadores capazes de fazerem o cálculo.
Meditando em templos do paganismo, os iluminados Mestre Yoda, Nostradamus, Walter Mercado, Chica da Silva Xavier e Mãe Lilizinha do Canto B capturaram um vislumbre do mais terrível e apoteótico futuro já previsto, no qual Dercy Gonçalves morria. Virgem. Tal futuro, segundo eles, significaria o Fim dos Tempos, pois eles mesmos profetizaram: “666 segundos antes do fim de tudo, Dercy Gonçalves, O Ser Eterno, irá morrer.” Dizem que somente o Padre Voador pode atestar a veracidade dessa profecia, pois ele viajou até o Fim dos Tempos, mas infelizmente seu paradeiro atual é desconhecido. É possível que Dercy o tenha mandado pra PUTA QUE O PARIU.
(Essas informações foram obtidas das mais diversas fontes, todas antiqüíssimas e fragmentadas. Pode-se citar aqui o Necronomicon, livro gentilmente divulgado na nuvem virtual pelos abnegados pesquisadores da Desciclopédia; as Memórias da Avó da Neta, ainda em manuscrito, pois nenhuma editora aceitou publicar tantos volumes (essa obra deve ser aceita com cautela, pois muitas informações podem ter sido falseadas, dada a pré-histórica rivalidade entre as duas); e partes só recentemente traduzidas da epopéia de Gilgamesh, dos evangelhos apócrifos, do Silmarillion e do romance Guerra e Paz.)

Só vou morrer quando eu quiser

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Eu, Dercy, há dez mil anos atrás

TOMO I
“Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom.” Esta declaração da própria Dercy Gonçalves é a única referência sobre sua verdadeira origem, supondo-se que seja confiável, uma vez que ela é mais velha do que a própria idéia de registrar a vida de alguém.
Dercy Palpatine Ramsés Tutankhamon Windsor Abravanel Marinho Castro Orleães e Bragança de Éden Gonçalves tem o poder da imortalidade e antigüidade, conhecendo toda a história do universo, visto que ela a presenciou. Possui também o dom de xingar 4 mil palavrões em 30 segundos, permitindo-lhe deixar seus inimigos com a auto-estima lá embaixo. Alimenta-se exclusivamente de ambrosia e néctar. Sua única limitação física é uma ligeira dificuldade auditiva, adquirida por ter ouvido um grande barulho, que depois ela soube tratar-se do Big Bang. Na ocasião, ela tentou gritar mais alto, mandando o responsável SE FUDER NA CASA DO CARALHO!
Das muitas coisas passadas e escritas, dos infinitos horrores deste mundo, é dito que Ela, A dos Muitos Nomes, Mãe de Mil Abominações, Aquela cuja Boca é a Cloaca do Mundo, A Morta que Não Morre, cujo nome conhecido torna loucos aqueles que o proferem, Dercy da Boca Imunda, proferiu a primeira palavra, PORRA, e começou a parir sua progênie medonha num tempo antes do tempo.
Foi a pioneira na taxonomia dos órgãos sexuais, tendo orientado a primeira cópula entre Adão e Eva. Como sua esposa andava se engraçando com uma certa serpente, Adão decidiu conhecer Dercy no sentido bíblico. Dessa relação nasceram Nod e todos os habitantes da terra de Nod, os Homens que Dizem Ni e os Lumpa-Lumpas. Assim, Caim poderia povoar a terra algum tempo depois sem precisar cometer incesto. Séculos mais tarde, Dercy namorou um dos descendentes de Adão, Matusalém, o moço.
Como ainda não conhecia o real alcance de seu maior poder, a imortalidade, Dercy temeu morrer afogada no dilúvio, e pediu a Noé para entrar na arca. Mas a Avó da Neta, que ajudou Noé a separar os casais de animais que seriam salvos, há séculos tinha uma rixa com Dercy, pois contestava o título de ser vivente mais antigo do planeta, e não a deixou embarcar. Dercy mandou-a TOMAR NO CU e salvou-se em uma jangada, pois ela sabia muito bem com quantos paus se fazia. Foi parar numa grande ilha que batizou de Atlântida, que milênios mais tarde lhe inspiraria a criar uma indústria cinematográfica brasileira.
Acreditava-se que ela era a mãe do primeiro highlander a colocar os pés neste mundo, e que a única forma de derrotá-la seria cortando a sua cabeça e jogando-a no fogo da perdição de Sauron. Com o passar dos séculos, após pararem de se enfrentar eternamente na esperança de se matarem (mesmo sendo imortais) e analisarem sua situação, os highlanders perceberam que o destino de cada um estava feito, e a profecia, cumprida: só haveria um. No caso, uma. Entretanto, um grupo dissidente tentou se unir para matar Dercy, achando que ela fosse mesmo um deles. Ao tentarem, falharam, pois suas espadas não a feriam: Dercy nascera antes das leis da física, e sua composição química repelia qualquer matéria ou energia, por serem coisas muito modernas se comparadas à sua pele.
Com Satã Goss, que tinha o poder de enfurecer os seres e transformá-los em monstros incontroláveis, Dercy pariu Darth Vader. Em seguida, mandou construir a Estrela da Morte e se tornou o Imperador, sendo muitos milênios depois destronada pelos Jedi, e indo refugiar-se em uma pirâmide no Terceiro Mundo, onde permaneceu outros tantos milênios até ser acordada por Escamoso, Simiano e Chacal. Para puni-los, invocava os espíritos do mal que transformavam aquela forma decadente em Mumm-Ra, o Ser Eterno. Mas o encantamento não era duradouro e ela logo voltava à velha forma.
Dirigiu-se então ao recém fundado Egito, onde inspirou a técnica da mumificação, tendo servido de modelo por várias dinastias, e partilhado da cama de todos os faraós, inclusive da faraona Hatshepsut, a barbada. Sua fama correu o mundo e logo foi convidada à corte do rei Nabucodonosor, para dirigir a mais famosa casa de massagens da Babilônia, que lhe deu fama de cafetina. Mas Dercy começou a ter vertigens com aqueles jardins suspensos, que eram altos pra CARALHO, e mandou o rei Nabuco tomar NABUCO dele.
Na Atenas de Péricles, Dercy iniciou sua carreira artística, atuando em Antígona, de Sófocles. “Não é antigona, PORRA!”, dizia nas entrevistas na Ágora. Recusou o papel-título de “Lisístrata ou A Greve do Sexo”, de Aristófanes, por ser contra seus princípios, o que lhe levou ao ostracismo.
Retornou ao Egito, envolvendo-se em novas polêmicas amorosas. Sua maior rival foi a rainha Cléo, pois esta ganhou os corações dos generais romanos Júlio César Cardematori e Marco Antonio. Dercy nunca a perdoou por isso e, disfarçada de empregada, entregou à sua rival um cesto cheio de cobras venenosas, dizendo serem morangos silvestres da Babilônia, causando a sua suposta morte, fato este controverso.
Para escapar da prisão perpétua, o que seria um martírio infinito, refugiou-se em sua pirâmide, ressurgindo séculos depois na corte de Elizabeth I da Inglaterra, onde foi ama de leite das jovens Rainha Vitória, Rainha Mãe e Rainha Elizabeth II, mulheres de saúde frágil que não viveriam muito.
Depois de muitos séculos fora dos palcos, Dercy retomou a carreira de atriz, participando da inauguração do Moulin Rouge, em Paris. Lá conheceu um de seus mais ilustres amantes, D. Pedro II, ex-Imperador do Brasil, aquele que era mais velho do que o pai. Mas quem foi rei nunca perde a majestade, e ele era muito apegado a uma coroa. Não sobreviveu muito tempo, o que deixou Dercy entristecida.
Depois de um porre de absinto, Dercy acordou na cama dos irmãos Lumière. Eles acabaram inventando o cinematógrafo a seu pedido, porque ela queria muito rever as cenas de sexo ardente que fazia com eles. Dessa relação nasceu Olivia de Havilland, que cedo foi morar em Hollywood, mudando-se depois para a Geórgia, onde se uniu aos confederados.
Por ser uma precursora do cinema, Dercy recebeu alguns convites naquela época de ouro. No início fez figuração em filmes como “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin (filme do qual, segundo rumores, correu o risco de ser afastada várias vezes por sua inaptidão para o cinema-mudo) e, mais tarde, ao alcançar o estrelato, protagonizou blockbusters como “A Múmia” e a seqüência “O Retorno da Múmia”, “A Noiva de Frankenstein” e “A Noiva Cadáver”, além de ter feito ponta como a mãe de Ben Hur, alcançando grande sucesso. Infelizmente, não demorou muito para que a fama subisse à sua cabeça e para que ela mandasse Hollywood inteira pra PUTA QUE O PARIU, deixando alguns executivos estupefatos e encerrando de vez sua carreira no cinema internacional.
Jogada na sarjeta, Dercy foi encontrada por um de seus maiores fãs, Santos Dumont, que a convidou para ser aeromoça do 14-Bis (apesar da contradição do termo). Assim, ela chegou ao Brasil no início do século XX, indo parar na cidade de Santa Maria Madalena, RJ, onde, com a ajuda de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, forjou uma certidão de nascimento, com a data de 23 de junho de 1907 e o nome de Dolores Gonçalves Costa, para regularizar sua situação jurídica.
Em seguida, Dercy e Macunaíma decidiram impulsionar as artes no Brasil, e inventaram a Semana de Arte Moderna, o movimento antropofágico (onde todo mundo comia todo mundo), o teatro de revista, a pornochanchada, a radionovela e a dança do maxixe (um homem no meio com duas mulheres fazendo sanduíche). Como a essa altura já não tinha mais nenhum descendente vivo, exceção feita a Olivia de Havilland, Dercy resolveu procurar seres tão antigos quanto ela, que pudessem lhe dar filhos para povoar a televisão brasileira, que ela pretendia criar.
Repórter Esso, testemunha ocular da história...

Xô, perereca!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Marquinho de volta à Ilha das Maravilhas

Passada a temporada de ciclones, uma calmaria nos trouxe de volta ao litoral catarinense. Já cansado das abobrinhas do Padre Voador, aproveitei que estávamos sobrevoando novamente a Ilha das Maravilhas, pedi alguns balões emprestados e saltei. Isso desestabilizou um pouco o sistema de navegação do padre, que voou rápido em direção ao oceano. Nunca mais tive notícias dele. Sentindo-me praticamente a Alice, colhi uns cogumelos silvestres e fui explorar a Ilha e suas circunvizinhanças.
.
AS MARAVILHAS DO PURO VENENO
O caderno da Pequenininha. Fonte inesgotável e infalível de todo o conhecimento humano.
O chuveirinho do banheiro da casa da Barbie. Essa maravilha eu não tive o prazer de conhecer pessoalmente, mas dizem, e eu acredito, que faz milagres e proporciona indescritível alegria.
A flor alucinógena do Vértice, conhecida simplesmente como “A Flor”. Artefato mítico trazido de Buenos Aires, que fica na Argentina, mas cuja origem é absolutamente desconhecida. Os não iniciados o consideram um simples prendedor de cabelo, de madeira. Na verdade, é capaz de transportar-nos a um mundo de vida plena e sabedoria, onde a realidade vil e os discursos emburrecedores são esquecidos.

A coleção de bonecas da Mamãe Oliveira. Admirada por uns, invejada e desejada por muitos, diz a lenda que por vezes essas minhas irmãs criam vida própria, apenas pelo poder que Mamãe Oliveira lhes transfere.
.
O vinho branco da Epagri. Bebida sagrada feita de uvas geneticamente modificadas, que só dão um bago por cacho, que por sua vez só podem ser colhidas uma vez por ano e comercializadas por pessoas devidamente autorizadas. A família da Delicada tem acesso exclusivo a este milagre da natureza.
O home theater da casa do pai do Rodrigo. Imagem, som, sensação, é o próprio mundo dos sonhos.

O Tinky Winky. Lendário veículo d'A da Perninha, quase participou da antiga corrida maluca. Sobrevivente aos camponeses com tochas e às estradas do Paraná.
.
.
.
O palacete dos Botomé. Também considerado uma das maravilhas de Floripa, pela suntuosidade e imponência, por ter sido construído aliando a paciência oriental e o jeitinho brasileiro, e por ser uma reserva ecológica artificial, especialmente da fauna canídea.

O rigatoni ao gorgonzola e o torteloni ao funghi do It's Italian. Os pratos mais pedidos do restaurante mais apreciado pelo Puro Veneno, seu sabor evoca as mais recônditas reminiscências, tal qual o ratatouille do filme.
.
A comida da vó d'A da Perninha. Todas as iguarias com as quais a imaginação e a gula humana são capazes de sonhar. Bolos, tortas, pratos quentes e o inolvidável doce de pêra.

O Dramin. Droga que encerra todo o poder da boa e velha indústria farmacêutica. Desloca-nos no tempo e no espaço e resolve todos os nossos problemas.
.
.

O fondue. "A gente tem que marcar um fondue". Esta frase foi repetida durante anos e poucos criam que um dia seria concretizada. Mas concretizou-se, repetiu-se e tornou-se tradição. Normalmente este festival gastronômico de inverno (e outras estações) ocorre no também maravilhoso Palacete dos Botomé.
A Continental nas quintas-feiras. Lugar mais legal, mais perto e mais barato que um universitário tinha pra se divertir alguns anos atrás, desde que chegasse antes das nove da noite nas quintas-feiras. Música, dança, sex on the beach, amizades bem resolvidas. Só nunca conseguimos descobrir quem é esse tal de Renner.
A barraca d'A da Perninha. Casaco/jaqueta/japona, esta vestimenta transformer pode tomar qualquer forma que sua dona quiser, especialmente a de abrigo contra as intempéries.
A nave-mãe da Barbie. Impressionante por sua imponência, este meio de transporte avançadíssimo para a compreensão humana é capaz de cruzar a ilha com a velocidade do pensamento. Algo que só a Barbie universitária poderia proporcionar.

O “Let's play zoo”. Brincadeira de cunho ecológico importada do estrangeiro, desafiava a coordenação motora e mental, além do bom senso. Acontecia a qualquer lugar e a qualquer hora, quanto mais público melhor, pois o objetivo era a conscientização da sociedade de que, no fundo, somos todos animais (A foto ao lado é meramente ilustrativa, pois não há registros do jogo, que sempre iniciava e terminava muito rápido, graças à carência geral de coordenação.)

Os gatos da Doutrinadora. Seres humanos de quatro patas, nerds, preguiçosos, alimentados à base de fandangos, exibicionistas e com perfil no Orkut, são repositórios de grande sabedoria, mas preferem ficar dormindo e fazendo bagunça.

.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fim dos tempos

A última rajada de ventos levou-nos muito longe, a um lugar ao qual nem o fracassado Bug do Milênio nem o decepcionante Dia da Besta conduziram a humanidade num derradeiro êxodo: o Fim dos Tempos. Para chegar lá, você deve ir reto toda vida, toda vida, toda vida. Passando pelo Armagedon, camba às direita e continua até o Ragnarok. É logo depois. Cansado de tantas loucuras, tive uma atitude prudente, comportamento óbvio, afinal era o Dia do Juízo. Disse ao Padre Voador para não pousar num lugar tão inóspito e tentei descobrir o que se passava assistindo a uma pequena TV do Paraguai presa na roupa dele. Ficamos uma semana ali, até o vento fazer a curva e nos mandar de volta.
.
FANTÁSTICO
(no início) Cid Moreira: Domingo, Fim do Mundo, vai começar o último Fantástico!
(no final) Zeca Camargo: O Fantástico fica por aqui. Entre agora no nosso site e participe de um chat com a Mãe Diná, que falará tudo sobre o que acontecerá depois do fim.
Glória Maria: Tenham uma semana apocalíptica!
.
PROGRAMA SÍLVIO SANTOS
Sílvio Santos: Ma, oi, rá rai ri ri! Já está à venda a Tele-Sena do Fim do Mundo. Serão vários sorteios todo domingo, antes do Topa Tudo por Dinheiro, até o grande dia. E desta vez a Tele-Sena vai distribuir o maior prêmio da sua história: um bilhão de reais, eu disse UM BI-LHÃO de reais. Você, como é o seu nome?
Pobre do auditório: Creuza.
Silvio Santos: Você veio com a caravana de onde?
Pobre do auditório: De Laranjeiras do Sul.
Silvio Santos: E onde é que fica isso, no fim do mundo? Rá rai ri ri!
(...)
Silvio Santos: Agora eu quero falar de um programa sensacional que o SBT vai apresentar no Fim do Mundo. É realmente incrível, esse programa foi ao ar 20 anos atrás, foi o maior sucesso em todo o mundo e agora o SBT vai trazer novamente pra você. Quem não viu, vai gostar. E quem viu, eu tenho certeza que vai querer ver novamente. Eu recomendo, e por que e por que que eu recomendo? Porque é bom. É a história de uma moça pobre, que passa a vida inteira procurando o seu amor e, no dia em que o mundo vai acabar, eles acabam se encontrando. Você não pode perder, é com a Thalia, estrela de novelas aqui do SBT. Então, não esqueça, no dia do Fim do Mundo, logo após o Chaves, “Maria do Apocalipse”. Mas se você perder, não se preocupe. Algumas pessoas têm ligado para a nossa produção, reclamando que o programa irá ao ar no mesmo horário do último capítulo da novela Leblon, da TV Globo. Não há problema, pois o SBT vai reprisar “Maria do Apocalipse” logo após Leblon. E logo depois, minutos antes do Grande Final do Mundo, o SBT Repórter Especial vai trazer pra você a vida de um grande homem que mudou o século XX. Você não pode perder, pela primeira e última vez na televisão, o Brasil vai conhecer a cara do Lombardi, oieee...
.
BOM DIA BRASIL
Míriam Leitão: A bolsa de Tóquio fechou o pregão do último dia do mundo em baixa. Londres também abriu com baixa. Tudo indica que isso irá repercutir em Nova York e São Paulo. Essa situação do mercado financeiro reflete as preocupações dos investidores, que não estão contentes com a nova política cambial adotada pelo governo diante do Fim do Mundo. Mas logo, logo, talvez para o segundo semestre do próximo ano, as coisas devem começar a melhorar.
(...)
Renato Machado: O Bom Dia Brasil vai ficando por aqui. Tenham todos um ótimo Fim do Mundo.
Renata Vasconcelos: A gente se despede com imagens da semana em que o mundo esperou o próprio fim. A gente não volta a se encontrar amanhã.
.
MAIS VOCÊ
Ana Maria Braga: Amanhã, no mais você, nós vamos aprender a preparar um prato que é uma delícia, para você lamber os beiços com sua família, naquela horinha gostosa do Fim do Mundo. Te espero amanhã.
.
VIDEO SHOW
Miguel Falabella (que volta para apresentar o último programa, pois André Marques foi chamado para participação especial nos últimos capítulos da Malhação): Você vai ver hoje no Vídeo Show: Imagens nunca antes mostradas do dia em que Cissa Guimarães quebrou o côco e arrebentou a sapucaia. E as gravações do último capítulo de Leblon, a novela da Manoel Carlos que foi recorde de audiência. E ainda, Cissa Guimarães encontra vários artistas na gravação da nova mensagem de Fim do Mundo da Globo.
.
MALHAÇÃO
No último capítulo, é revelado o nome do misterioso comprador do Múltipla Escolha: Héricles (Danton Melo). O ingênuo rapaz tornou-se um homem sem escrúpulos e casou-se por dinheiro com Paula (Sílvia Pfeifer), depois da indenização que ela recebeu pela morte da irmã gêmea na explosão do shopping Tropical Towers e da pensão milionária após o divórcio com Bruno Mezenga. Separou-se dela e assumiu seu relacionamento de anos com o Mocotó (André Marques). Seu plano é derrubar tudo e reconstruir a lendária academia Malhação, da qual finalmente será o proprietário.
.
CASSETA E PLANETA
Narrador: O Fim do Mundo ainda não acabou, veja o que você vai ver depois dos comerciais...
.
GLOBO REPÓRTER
Sérgio Chapelin: Baratas, escorpiões, mafagafos, mandrágoras: as espécies capazes de sobreviver a uma hecatombe nuclear. Dercy Gonçalves: a opinião daquela que viu o início e verá o fim. Pode a espécie humana sobreviver? Nesta sexta, no Globo Repórter.
.
PROGRAMA DO JÔ
Ao longo da última semana, Jô Soares entrevista os seres mais antigos do planeta: Glória Maria (que tomou 800 pílulas em 15 minutos de entrevista), Elke Maravilha, Hebe Camargo e o Chaves (gentilmente cedidos pelo SBT), Cid Moreira, o próprio Silvio Santos (gentilmente cedido por suas filhas que finalmente assumiram o controle da TVS), Olivia de Havilland (sempre tem uma entrevista em inglês), e os amigos de infância Canô, Oscar Niemeyer e Dercy Gonçalves, a mais antiga contratada da Globo. A Avó da Neta foi convidada, mas não compareceu pois foi ao dentista. Fidel Castro foi cogitado, mas não haveria tempo suficiente pra levar toda a entrevista ao ar. No final, para surpresa de todos, Jô Soares entrevista o Dr. Ulisses Guimarães e o jornalista Roberto Marinho (vocês não acreditaram que eles tinham morrido, né?).
.
JORNAL NACIONAL
Fátima Bernardes: Na última reportagem da série sobre o Fim do Mundo, você vai ver como o Fim do Mundo pode resolver o problema da fome. E com uma solução simples.
(...)
Moça do tempo da vez: A frente fria que chegou nessa madrugada à região sudeste já está se afastando, e o tempo deve ser ensolarado nessa grande área clara, que vai do litoral paulista até o litoral carioca, com possibilidades de chuva no decorrer do período.
Fátima Bernardes: Os paulistas pegaram a estrada cedo por causa do feriadão de Fim do Mundo, congestionando as estradas que levam ao litoral paulista e ao Rio de Janeiro. A Polícia Rodoviária já está se mobilizando, para evitar acidentes, com a Operação Fim do Mundo, em todo o Estado de São Paulo.
(...)
(no fim do jornal) William Bonner: E agora, você fica com o último capítulo de Leblon.
Cid Moreira: Boa Noite. (Sim, ele mesmo; o último “boa noite” do último Jornal Nacional do último dia do mundo não poderia ser dado por outra pessoa.)
.
ESPECIAL FIM DO MUNDO COM A XUXA
Num momento marcante do programa, deixando uma mensagem de esperança para todos os baixinhos, Xuxa parte com Sasha em sua nave para fora do planeta, salvando-se do Fim do Mundo, e o resto das crianças que se f...
.
TRANSMISSÕES AO VIVO
Dirceu Rabelo, o narrador da Globo: Toda a equipe da Rede Globo, nos quatro cantos do planeta, preparada para transmitir para você todas as emoções desse evento inesquecível. AO VIVO! EXCLUSIVO! Amanhã, logo depois do último capítulo de Leblon. (Era óbvio que a Globo compraria os direitos de transmissão do Fim do Mundo, mas sem abrir mão da sua programação. Tudo o que existe termina com a transmissão da vinheta.)
Hoje é um novo dia de um velho mundo que acabou
Não há novos dias nem alegrias, isso é pra todos, é só querer
Nossos pesadelos serão verdade
Pois o mundo já acabou
Hoooje a morte é sua, hoje a morte é nossa, é de quem quiser, quem vier
A morte é sua, hoje a morte é nossa, é de quem quiser, quem vier

Rogai por nós, bem-aventurado Antônio

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Marquinho na Ilha das Maravilhas

Bons ventos nos levaram a sobrevoar aquele pedacinho de terra perdido no mar, primeiro pisada pelos carijós e pelos naufragados de Aleixo Garcia, depois povoada por falantes de um dialeto quase incompreensível, referida já nos relatos dos aventureiros Franklin Cascaes, Robinson Crusoe, Gulliver, John Locke e Lewis Carroll como A Ilha das Maravilhas. Ao redor da lagoa formosa onde a lua se espelhava, nas matas, praias e freguesias, pude divisar algumas das singulares construções que fizeram a sua fama. Infelizmente, só pude apreciar aquelas belezas de cima, porque o atrapalhado do Padre Voador não deu jeito de pousar, e logo um novo ciclone extra-tropical nos sacudiu para outras bandas. Uma coisa eu posso garantir: as Maravilhas são MARA!
.
AS MARAVILHAS DE FLORIPA
O Palacete dos Botomé. Pela suntuosidade e imponência, por ter sido construído aliando a paciência oriental e o jeitinho brasileiro ("prefiro não comentar"), e por ser uma reserva ecológica artificial, especialmente da fauna canídea.
.
A FAED. Por resistir ao tempo e aos cupins, por desafiar a lei da gravidade (a biblioteca foi removida para o Clube Doze porque tinha risco de desabar) e pela eficaz utilização do panóptico. Também conhecida como O Templo.
.
Fórum de São José. Pela sofisticada técnica que permitiu criar labirintos tão complexos (a gente se perde nas escadas), pela inovação ao colocar as tomadas no chão, e pelo design futurista.
.
Centro Executivo Casa do Barão. As torres gêmeas de Florianópolis, com vista para o Batalhão do Exército, também conhecido como Jagatá; por preservar a memória do WTC e ter vista para outras maravilhas.
.
Centro de Eventos da UFSC. Também conhecido como Elefante Branco, porque só as grandes obras da humanidade demoram tanto tempo pra ficar prontas (infelizmente foi concluído e, portanto, descaracterizado).
EMAJ (antigas instalações). Pela resistência a ser assimilado pela modernidade (infelizmente a transferência do EMAJ para outro prédio apagou a vivacidade do lugar).
.
Shopping Iguatemi. Pela integração homem-meio ambiente.
.
.
.
.
.
O Itambé. Pelo espaço de sociabilidade e diversidade inigualáveis.
Fórum da Capital. Por ser um eterno memorial à fome de justiça (afinal, tem a forma de uma marmita), e pela sábia utilização do espaço vazio.
O paredão da Hercílio Luz. Obra inconfundível que acompanha o traçado natural do antigo Rio da Bulha (hoje conhecido como esgoto), e pela homenagem às mulheres (todos os prédios têm nome de mulher; dizem que eram as amantes do engenheiro).
.
Memorial do Miramar. A cidade não tem ruínas da antigüidade, mas tem as suas colunas inacabadas do mesmo jeito; tão integradas à vida da cidade que ninguém as vê.
.
.
O Sistema Integrado de Transportes. Há anos desafiando a compreensão humana e os limites da razão e da lingüística (integrado?). Trata-se aqui não de uma obra, mas de um conjunto de obras idealizado por governantes de grande visão.