quarta-feira, 5 de março de 2008

A caravela amarela - 01 a 03/01/2008

LONDRES
“E olha a hora para quem vai viajar, trabalhar ou estudar.” Todo lagunense que se preza, e também os que não se prezam, como eu, cresceu ouvindo essas palavras - repetidas dia após dia pelo radialista jurássico da Difusora e depois da Garibaldi -, organizou suas vidas e acertou seu relógio por ele. Mais confiável do que o João Vicente, só mesmo o relógio da torre, o pseudo-Big Ben. E assim, buscando o máximo de precisão e uma piada para repetir pelos próximos anos, acertei a hora para quem vai viajar no velho McFly (é o nome do meu relógio de pulso). E achei que estava arrombando. Mas, como diria Jack, vamos por partes.
A propósito, tenho evitado usar essa expressão batidíssima, “como diria Jack”, mas ela pede pra ser utilizada na cidade natal do famigerado Estripador. Fiquei sabendo de um passeio que pode ser feito pelos lugares onde ele matou as suas vítimas, mas meus interesses mórbidos, ao menos dessa vez, não falaram mais alto.
O fato é que passei o New Year tentando me deslocar no meio daquela multidão absurda, indo de um lado pro outro atrás do melhor ângulo pra fotografar os fogos do London Eye. Tudo absolutamente organizado, policiais controlando o tráfego com uma precisão irritante, ruas com fluxo de pedestre num único sentido, e eu sozinho, porque era impossível encontrar o irmão da Conciliação e seus amigos no meio daquela deliciosa confusão. Inocentemente, tínhamos combinado de nos encontrar na saída do metrô. Tsc tsc...
O local privilegiado é a ponte entre as Casas do Parlamento e o London Eye, que estava cheia de gente mas, quando finalmente cheguei perto, espremido pela multidão britânica, estava interditada, ninguém mais entrava. Provavelmente era só para os protegidos da Rainha. Cheguei a dar uma volta gigantesca e me posicionar do outro lado da mesma ponte, também sem sucesso. Aquelas pessoas lerdas, achando que não dava pra se mover mais e eu, como bom brasileiro, pensando “essa gente não sabe se empurrar, caralho?”. Não teve jeito mesmo e, às 23:30h, hora de Greenwich, voltei correndo até uma ponte que era o lugar melhorzinho por onde eu passara, bem a tempo de recuperar o fôlego e ver o show de fogos. O London Eye estava longe, de perfil, mas foi uma bela vista. Obviamente, não ouvi as doze badaladas “notúrnicas” do Big Ben (o verdadeiro). E os fogos também não eram aquilo tudo.
2008. Ano do rato. Inevitável lembrar do horóscopo chinês numa cidade com tantos japas (e aí fica uma coisa para refletir). Uns dois ingleses bêbados me desejaram “happy new year” e terminei a noite como faço sempre que passo a virada do ano em Londres: caminhando por horas pelos lugares de sempre, Piccadilly Circus, a feira de Natal com um parquinho de diversões montada na Leicester Square, o Soho. Lanches àquela hora? Tudo bem, mas somente comida fria (vai entender a lei deles). Pelo menos tinha metrô.
Era um novo dia de um novo tempo que começou, e resolvi explorar os mistérios da passagem do tempo, dando continuidade à minha trilogia passado-presente-futuro. Nenhum lugar melhor pra isso do que o Observatório Real de Greenwich, onde as horas do mundo nascem. Foi aí que descobri uma piada ainda melhor para os próximos anos; agora, se me pedem as horas e perguntam se meu relógio está certo, digo com orgulho que foi acertado pelo Prime Meridien of the World. Depois da foto oficial com um pé em cada hemisfério e de uma tranqüila caminhada, tive uma visão que, a princípio, atribuí àquelas substâncias velhas conhecidas: partindo do observatório e cortando os céus do planeta, um laser verde, o próprio Meridiano de Greenwich! E eu que sempre pensei que ele fosse uma linha imaginária...
O futuro começou mesmo no dia seguinte e, na falta do William Bonner e da Fátima, fui encontrar-me com celebridades bem mais famosas no Madame Tussaud's, o museu de cera. George Clooney sentado à mesa da ceia de Natal, preparada pelo chef Oliver, ao lado de Brad Pitt e Angelina Jolie, muito simpáticos, convidaram-me para cear com eles, mas tinha um bando de mortos de fome atrapalhando. No meio do salão, sempre se podia topar com Julia Roberts, Leonardo di Caprio, Samuel L. Jackson ou com uma fotógrafa anônima em quem todos esbarravam e pediam desculpas. Ela nunca respondia. Ah, e obviamente, com o Harry Potter! Imperdoável que não tivessem estátuas da Meryl Streep, vestindo Prada ou não (tive que me contentar com a Susan Sarandon), e da Madonna (e olha que ela mora em Londres). Entre os líderes políticos mundiais, me emocionei e juro que tentei tirar fotos da recém-falecida Benazir Bhutto. Mas infelizmente Hitler e Churchill, à sua frente, são bem mais famosos e causam uma certa... disputa entre os visitantes. Benazir, we still love you!
Na última noite, véspera da caravela zarpar rumo ao Canal da Mancha, cometi uma extravagância. Não, não comprei um alfinete na liquidação da Harrods. Assisti a um musical. Qual escolher, entre tantos? "O Fantasma da Ópera" estava no cirurgião plástico naquele dia, "Mary Poppins" estava lotado, final de temporada. Olhei pro lado e... "Mamma Mia!", o musical inspirado nas músicas do Abba. "É esse, tinha que ser esse", pensei. Nada contra "O Guarani", a ópera brasileira por excelência, mas assistir a um musical moderno e divertido em Londres foi algo que só posso classificar, citando O Vértice, futura moradora da cidade, como uma sensação de “vida pleeena”.
Na saída, eu ainda pensava no tempo. Se não houvesse o horário brasileiro de verão, seriam naquele momento 19 horas em Brasília, just in time para entrar no ar A Voz do Brasil.
Em Greenwich, 22 horas!


Supercalifragilisticexpialidocious!

2 comentários:

Anônimo disse...

Conta mais, Marcantônio...

Fernanda disse...

Adoreeeeeeeeeeeeeei