quarta-feira, 2 de julho de 2008

A Grande (Vara da) Família

No “Dicionário dos Lugares Imaginários”, o escritor canadense-argentino Alberto Manguel descreve em forma de verbetes enorme gama de localidades produzidas pela inventividade humana em séculos de literatura, da Atlântida a Lilliput, da Terra do Nunca ao País de Oz, passando pela Terra Média, que fica no meio, pois se é média é a média entre uma coisa e outra, como faria questão de frisar o Papai Smurf, genitor da Pequenininha. A edição brasileira traz o Sítio do Pica-pau Amarelo e a Pasárgada, onde sou amigo do rei. A lista não é exaustiva, pois muitos lugares até recentemente não haviam constado em qualquer obra literária, como a Ilha das Maravilhas (não confundir com o país de mesmo nome), a República das Pessoas que Escrevem Assim e a lendária Vara da Família de São José.
O Padre Voador não teve oportunidade de conhecer este lugar e, na verdade, ainda que seja um homem de muita fé, provavelmente não acreditaria na sua existência, pois os personagens que ali vivem e os eventos que ali ocorrem vão além do surreal e não podem ser descritos com palavras conhecidas. Dariam um ótimo tema pra um filme do Buñuel, se ele já não tivesse se encontrado com o mal irremediável há décadas. Quem sabe eu não consiga contactá-lo e pedir algumas dicas, coisinhas?
Como Mãe Lilizinha do Canto B é muito ocupada e só atende com hora marcada, apelei pra Dra. Prazeres, a Batista. Seus poderes mediúnicos são vastos, pena que está um pouco caduca e às vezes confunde as coisas. E eu também não facilito, pedindo pra falar com um espírito espanhol sem a presença da Boa pra traduzir.
Chamou um espírito e veio outro, mais chegado. Isso é invocação.
- Olá, quem está aí?
- Bem, eu prefiro não me identificar, é que já faz muito tempo que eu estive na Terra.
- Mas o senhor não pode me dizer pelo menos a sua profissão, a sua inicial?
- Bom, eu era um advogado de descendência árabe...
- Ah, aquele advogado cujo nome começava com Z? Como vai, Doutor Z?
- Bem, Louro, sabe, eu tenho acompanhado de perto a vida da Vara da Família de São José e sei porque eles têm passado por tudo que passam...
- Então conte, Doutor Z, tudo o que o Fórum de São José precisa é de uma boa fofoca.
E ele falou da transmigração da alma, da lei do carma e de porque todas aquelas pessoas foram reunidas pela mão do destino na Vara da Família: para expiar terríveis faltas cometidas em tempos imemoriais.
Em eras remotas, a humanidade resolveu construir uma torre tão alta que alcançasse os céus. Para tal empreitada, contrataram o melhor arquiteto da época, um jovem chamado Oscar Niemeyer, que projetou um estrutura incomparável utilizando a sua recém-inventada técnica das curvas – diferente das formas triangulares tradicionais que ele aplicara em seu complexo arquitetônico do Egito. A obra empregou um número incalculável de trabalhadores de várias procedências, alguns não muito zelosos de seu serviço. Uma mulher de vez em quando saía pra passear e avisava pra não esperarem sua volta. Uma família se desdobrava, trabalhando dia e noite pra alimentar toda aquela gente, com saborosas iguarias. Nessa família, havia uma menina de olhos verdes – mas ela preferia que fossem azuis, pois achava que olho verde é de balaio, todo mundo tem -, que adorava puxar papo com os trabalhadores. Travessa, um dia apertou todos os botões do elevador da torre, só pra sacanear os coitados, que levariam semanas pra subir e descer. A obra parou. Começou um furdunço e ninguém se entendeu mais. E a menina sapeca teve seu castigo séculos depois, indo trabalhar na Vara da Família sob a alcunha de Zóio de Balaio, doravante ZB.
Na época de Abraão, um jovem de aparência nórdica vivia na cosmopolita Gomorra, cidade cheia de gente pecadora, onde rolava muita putaria. Anunciava no jornal local seus serviços de massagem, atendendo hebréias, pagãs e casais, com local no centro. Passava os finais de semana na vizinha Sodoma, com muitas opções de lazer, inclusive bailões freqüentados por pessoas de todas as idades. Eram cidades muito violentas e ele tinha um sem-número de desafetos. Num dia de tempo fechado, percebeu que a primeira gota que caiu não era de água, e sim de fogo. Como pessoa boa que era, tomou uma atitude. Passou um trote para o corpo de bombeiros de Sodoma, o único da região, falando de uma criança que ia ser sacrificada pelo pai na distante Canaã. O velho tinha desistido mas esquecera o menino amarrado em cima de uma pedra e não havia ninguém pra socorrê-lo. Na ausência dos bombeiros, a chuva de fogo e enxofre logo arrasou as duas cidades, e fez-se o caos. Prevenido, o louro pegou suas coisas e se mandou a tempo. Apenas um casal com suas duas filhas foram mais rápidos do que ele, e picaram a mula – ou melhor, a jumenta de Balaão -, avisados pelo Senhor, pois eram os únicos justos entre toda aquela gente.
Em meio à confusão, o louro esbarrou com uma jovem virgem – a única de Sodoma e Gomorra, mas ainda assim pecadora -, que gritava só de sacanagem o nome dos seus vizinhos, por não a terem levado junto. Assim, ele ficou sabendo que o homem se chamava Ló, o qual fazia um saboroso pão, que na verdade era um bolo, o pão-de-ló. A virgem se esgoelava tanto que a mulher de Ló acabou virando-se para trás, contrariando a ordem do Senhor, e transformou-se numa estátua de sal. Sentindo-se vingados, estes dois personagens fizeram um pacto, tornando-se a partir daquele dia sócios em suas atividades obscuras. Renasceram como Marcola, dono de uma “boca” e Tirol, seu braço direito. Tempos depois, ela foi promovida a gerente da “boca” e rebatizada como Parma, e “passava” todos os inimigos de Marcola. Mas nem os lucrativos negócios evitaram que fossem trabalhar na Vara da Família. Há registros de, pelo menos, mais uma sobrevivente da tragédia bíblica.
Os descendentes de Abraão sofreram muito com a escravidão no Egito. O escriba-chefe, um homem de vasta cabeleira, cortava um dobrado pra fazer cumprir os desígnios de faraó e ouvir os muitos pedidos dos súditos. Uma egípcia estressada ia diariamente reclamar que não agüentava mais “essas guria hebréia”, que só ficavam cuidando da vida dela, e que se ele não tomasse uma providência, ela iria direto no faraó. O escriba ouvia, paciente, e se movimentava rápido entre um palácio e outro, andando de meia pelo deserto, sempre acompanhado de seu gato de estimação – animal sagrado naquele país – que o ajudava a supervisionar o trabalho dos escravos. Só parava pra descansar à sombra de um cactus e comer o seu sanduíche natural de papiro e flor de lótus. Um hebreu chato vinha toda hora solicitar audiência com o faraó - que apesar de ser carrancudo recebia todo mundo -, reclamando de tudo quanto era coisa: enchente, chuva de pedra, rãs, gafanhotos, ratos na comida e o escambau. Faraó mandava o escriba resolver e ele ia sempre deixando pra depois. Enquanto isso, o povo hebreu tinha que agüentar aquelas pragas. O escriba renasceu como o Calvo – o nome é auto-explicativo -, guia espiritual da Vara da Família.
No reinado de Salomão, o sábio rei às vezes precisava julgar casos muito difíceis. Certa feita, duas mulheres alegavam serem a mãe de um recém-nascido. O povo reunido fazia um alvoroço e o rei mal conseguia “conjuminar” as idéias. Uma mulher, cuja voz se destacava entre os demais, gritava em favor de uma delas, dizendo que a criança era a cara da vó. Indeciso, o rei chamou sua conselheira loura, que estava atarefada com a quantidade de alimentos que abarrotavam os celeiros reais. Depois de enviar um escravo para as minas do rei Salomão – embora achasse que ele iria atrás das filhas do monarca, que eram umas gatas -, a conselheira sugeriu que as mulheres entrassem num acordo, já que ainda não tinha sido inventado o exame de DNA: cortariam a criança ao meio e cada uma ficaria com metade. E assim foi feito. Diz a Bíblia que o Salomão resolveu a questão de outra maneira, bem mais salomônica, mas essa versão parece ter sido forjada. A conselheira reencarnou como a Escrivoa da Vara da Família, e continua zelando pelos alimentos.
Na Judéia, ao tempo do império romano, numa bela tarde uma judia loura caminhava lépida e fagueira pela rua do comércio de Belém. Entre uma prosa e outra, eis que avistou uma grande placa, escrita em bom aramaico: PERCEVEJOS – ATACADO E VAREJO. Sabedora de uns boatos que corriam sobre uma misteriosa estrela e um tal de messias que nascera numa estrebaria nas imediações, filho de gente da Galiléia – e todo mundo na época sabia que não pode vir boa coisa da Galiléia –, a judia loura, sempre muito zelosa da Torá, resolveu comprar várias e várias caixas de tachinhas. Quase desistiu, porque a atendente fingia que não tinha ninguém no balcão pra ser atendido. Mas finalmente veio algum estagiário atendê-la. Dirigiu-se à estrebaria, na calada da noite. Todos dormiam, inclusive o menino e as vaquinhas, apesar daqueles anjos que não paravam de cantar Gloria in excelsis Deo. Ela já os estava insuportando. As visitas estrangeiras ainda não haviam chegado. Sorrateira, encheu a manjedoura de tachinhas e saiu correndo, antes que a criança começasse a chorar. A judia perversa renasceu séculos depois, novamente loura mas com película, e uma poia, sem a esperteza de outrora, atendendo por muitas alcunhas, sendo a mais conhecida a de Sra. Weltzer.
Muitos anos depois, num domingo de muito calor, uma judia preta, imigrante de terras mais a oeste do Mar Vermelho, decidiu ir à praia. Como o Mar Morto era longe e ela gosta de coisas bem vivas, foi ao rio Jordão mesmo. E sabe como é judeu pobre, tem que levar o frango e a farofa. Mas os mercados estavam muito movimentados com a multidão que vinha atrás de um daqueles profetas malucos do deserto. E esse não era daquele tipo que multiplica pão e peixe, então todo mundo tinha que comprar mesmo. Ela acabou não levando o frango. Lá chegando, esticou uma toalha no chão, tirou a canga e ficou fazendo exposição da figura sob o sol palestino, se engraçando com um escravo etíope que não tinha nada de eunuco. Não fez top less porque o Levítico proibia. Havia uma fila enorme de pessoas esperando pra serem batizadas pelo tal profeta, e ela resolveu não entrar na água, que devia estar uma imundície com todo mundo fazendo as suas sujeiras. Uma mulher reclamava o tempo todo que estava estressada com a demora da fila. Lá pelas tantas, quando um jovem barbudo estava sendo batizado, uma singela pomba desceu dos céus, ficou voando sobre ele, enquanto uma voz em off, parecendo um trovão, vinda não se sabe de onde, falava algumas palavras às quais ela não prestou atenção. A essa altura, com o sol a pino, a fome bateu. Como a judia preta não era chegada a mel silvestre nem a gafanhotos, e a tal pomba tinha pousado a seu lado, não perdeu tempo: fez churrasquinho do Divino. Refeição que lhe custou a reencarnação como a Escura da Vara da Família.
Na capital da Judéia, poucos anos mais tarde, uma mulher iluminada e dotada de poderes mediúnicos cortava um dobrado pra fazer brotar algumas flores e plantas ornamentais nos jardins de seu palacete, no sopé do Monte das Oliveiras, onde nasceram todos os meus antepassados (mas isso não tem nada a ver). Mas também, como que umas plantinhas iam vingar naquela terra seca e infeliz? Só mesmo o cactus, símbolo de vigor que atravessaria os séculos. Como seus dotes botânicos eram muitos conhecidos em toda Jerusalém, foi a ela que o governador Pôncio Pilatos encomendou uma coroa de espinhos para uma execução concorridíssima no feriado da Páscoa. Ela reclamou que era brincadeira um pedido assim em cima da hora, ela cheia de pães ázimos pra cozinhar, cordeiro pra assar, a despensa sem nenhuma erva amarga, e ainda tinha que fazer antes do sábado, porque era proibido trabalhar. É brincadeira! Mas fez a coroa assim mesmo, com muito capricho, afinal foi o governador que mandou. Pediu pra sua assistente levar, mas pra (não) ajudar ela tinha se machucado com os espinhos e pegou um atestado. Mesmo sendo uma iluminada e tendo renascido como a Mãe Lilizinha, esta boa judia teve que cumprir seu carma e trabalhar na Vara da Família, onde fundou o congá conhecido como Canto B.
Enquanto isso, uma pequena multidão se aglomerava na frente do palácio de Pôncio. Uma jovem loura, magra que dava até nojo nas hebréias invejosas, e membro de uma seita pouco conhecida na época, a Seita dos Ceticozinhos - pequenos céticos, pessoas de pouca fé porque fé demais não cheira bem –, puxava o coro dos pobres, em resposta às indagações do governador: “Não há outro rei senão César! Crucifica-o!”. Uma judia preta ao seu lado emendou, pois era muito dadivosa e estava pegando um sujeito antes dele ser preso: “Solte Barrabás!”. Aquela que tinha pego atestado por causa do espinho, naturalmente tinha ido ver a arruaça, e gritava mais alto que todos: “Ele não! Solte Barnabé!” Alguém a corrigiu: “É Barrabás!” E ela: “É tudo a mesma coisa.” Quando o réu foi apresentado ao povo, com uma coroa de espinhos na cabeça, a judiazinha loura sem coração, louca pra ver o Gólgota pegar fogo, atiçava os outros: “Crucifica-o! Crucifica-o!” E assim aquele justo foi condenado à cruz. A multidão acompanhou a procissão, ouvindo a banda e o lamento da Verônica, rumo ao Hospital de Caridade (digo, ao Calvário). Não contente, aquele encosto seco ainda calçou o Filho do Homem por três vezes na subida do morro, fazendo-o ir ao chão. Hoje paga seus pecados pela segunda vez na Vara da Família, atendendo quando chamada de Sinhá Loura.
A Avó da Neta não tem carma. Ela é o carma de todos eles. E de qualquer forma, não pode expiar suas faltas nas sucessivas encarnações, pois só teve uma até agora, a única, haja vista tratar-se de um ser de idade incalculável, rivalizando com a própria Dercy Gonçalves. Sua história é muito longa e será contada oportunamente.
Tais foram as revelações do Doutor Z. E tem gente que diz que jogou pedra na cruz ou colou chiclete debaixo da mesa da santa ceia.

Rá!

Um comentário:

Camila (ZB) disse...

Lá vem bomba!!!